A rotina é, por rotina, aborrecida. Mas ainda assim, por vezes, interessante. Depende da nossa atitude. Da procura do detalhe, da particularidade que nos prende o olhar e que tempera a costumeira, tornando-a um pouco mais saborosa.
De momento, é-me dado começar os meus dias sentado dentro do carro à espera. Não será exactamente o começar, pois já fiz aquelas coisas todas que a generalidades das pessoas faz após acordar (quando acorda cedo). Mas, digamos, trata-se da primeira tarefa do dia.
O que espero é para aqui irrelevante. Relevante é que espero. Que espero entre 5 a dez minutos (é a incostância da rotina, pois também ela tem margens de variabilidade entre as balizas que fazem dela rotina).
Também relevante para o assunto que aqui me trás é o local da espera. É novo. Uma praça conhecida da capital. Já a conhecia, portanto. Mas agora, aos poucos, vou-a observando e descobrindo novamente. E, curiosamente, o que de mais novo se me apresenta não é o que lá está estático, mas o que por lá se mexe e que nunca pude ver, pois também eu ali sempre estive em movimento.
São pessoas. Em poucas semanas sinto que conheço (não conhecendo, como diria Narciso Miranda hoje satirizado pelos “Gatos”) umas quantas pessoas que, para mim, já fazem parte daquela praça. São pessoas que, como eu, ali cumprem rotinas diárias.
Quatro são de uma regularidade que faria corar qualquer relógio suíço. Deixem-me apresentá-las: a menina estudante, o senhor do cão e as duas funcionárias. A estes quatro junta-se pontualmente (ainda não captei a regularidade) um padeiro.
A jovem estudante, carregando o seu dossier debaixo do braço, vestindo invariavelmente umas calças de ganga e calçando ténis, passa em frente do carro com um ar de falsa indiferença, abanando ligeiramente os cabelos compridos e encaracolados, como quem desfila consciente perante um público (também eles, seguramente, já deram conta da minha rotina). É uma rapariga de aspecto agradável, na casa dos seus dezassete ou dezoito anos, com tom de pele muito branco e cabelos entre o loiro e o ruivo (pelo menos aquela hora de um dia ainda anoitecido). Atravessa da esquerda para a direita, com o ar seguro próprio da idade.
O senhor do cão é alto e veste num estilo casual clássico. A meia idade é anunciada por uma careca evoluída, mas que ainda não encandeia. Tem um ar vagamente austero. Já o cão, que parece rafeiro, apresenta uma atitude mais descontraída (o que se compreende). É de tamanho médio e apresenta um pelo curto de onde sobressaem umas madeixas que lhe conferem um aspecto pouco atraente. O passeio é relativamente curto. Atravessam da esquerda para a direita e, antes que a minha espera termine, voltam a atravessar da direita para a esquerda.
Já as duas senhoras, que rotulei de funcionárias, atravessam da direita para a esquerda. A que normalmente passa primeiro é uma mulher madura, encorpada e baixa, de longos e bonitos cabelos pretos escorridos. Apresenta-se sempre de saias pelo joelho, deixando à vista umas pernas musculadas, próprias de quem trabalha muito em pé ou anda muito. Sempre com sapatos bicudos e de salto alto, terá tido uma beleza interessante quando jovem, da qual ainda mantém vestígios num corpo que se vai deformando e avolumando.
Já a segunda é mais nova, mas não menos volumosa. E está em claro processo de engorda, o que se reflecte nas calças que ameaçam descoser-se e no andar, feio, que faz lembrar o bambolear de uma pata. Aquilo definitivamente pesa-lhe. E vem sempre, sempre, a comer qualquer coisa que trás embrulhada numa prata.
Tal como eu, àquela hora, são elementos móveis que preenchem um cenário, gerando uma vivência de familiaridade que tem tanto de real como de irreal. Passam e provavelmente continuarão a passar diante de mim durante algum tempo. Trocaremos olhares. Tomaremos consciência da nossa mútua existência e deste nosso momento e espaço de rotina partilhada. E por aí ficaremos, como tanta outra gente em tantas situações semelhantes. Mas, quanto a mim, ao entreter-me com estes pensamentos naqueles breves minutos de espera, dificilmente voltarei a conceber aquela praça sem a associar àquelas pessoas e às especulações que sobre elas vou fazendo.
É o espaço indiferenciado transformado em paisagem.