terça-feira, 3 de Novembro de 2009

0084 - Orgulhosamente acompanhados

Mapa da corrupção mundial em 2007



A corrupção parece crescer em Portugal. Digo parece não porque tenha muitas dúvidas sobre a dimensão do problema, mas porque tenho dúvidas sobre se realmente cresce ou se a pandemia que o parece caracterizar não será apenas o resultado de uma maior visibilização de algo que há muito se encontra bem enraizado nos, até há pouco, brandos costumes da nação.

Estará Portugal mais corrupto que durante a 1ª República ou durante o Estado Novo? Ou simplesmente continua tão mal educado como dantes, mas menos discreto?

Não há ética que se possa fundar no indeterminismo, ou seja, na falta de valores que, ainda que percebidos como relativos, têm que ser vivenciados com pudor e fidelidade. Ora os tempos são tempos, como dizia Boaventura Sousa Santos, de excessos de indeterminismo cultural, moral e ético, já para não falar do científico. O clima gerado por esses excessos é propício para os “desvalorizados”: aqueles que têm uma concepção exclusivamente materialista de valor.

De facto, a democrática pós-modernidade, compreensiva e multi-cultural, tem gerado um ambiente de desresponsabilização, de facilitismo e superficialidade, onde é fácil ao preguiçoso e ao medíocre passarem pelo que não são. Bem falante, o espírito mais reaccionário ou mandrião, poderá passar por arauto do vanguardismo pós pós-moderno ou por fiel guardião de uma modernidade considerada ainda consequente. Na mesma linha, o mafioso tem hoje um espaço de manobra de perímetro alargado. Mais exposto, ou não vivêssemos num mundo mediático, mas ainda assim, e paradoxalmente, mais seguro.

E esta é a grande irrealidade. A sociedade portuguesa vai-se expondo a si própria como profundamente corrupta e, simultaneamente, aceita e aprofunda esse seu carácter, como se o destino lhe marcasse a hora pela vida fora... que havemos de fazer?

Autoridade confundida com autoritarismo, responsabilidade confundida com ingenuidade, exigência confundida com presunção, conhecimento confundido com superficialidade, ética confundida com dogmatismo, vida confundida com consumo. Com tanta confusão, própria de uma sociedade mal-educada, é natural que Portugal continue a viver a sua irrealidade, agora acreditando que vive num regime democrático, como antes acreditou ter um desígnio supremo neste mundo. E cá vamos, cantando e rindo...

Mas, pelo que revela o mapa acima, não nos enganamos apenas a nós próprios.

quarta-feira, 21 de Outubro de 2009

0083 - Enfadados



Ontem na televisão vi uma daquelas reportagens que, de tempos a tempos, passa sobre pessoas que ficaram paraplégicas. E lembrei-me da Arqueologia.


Em Arqueologia e em Portugal as condições de trabalho estão, em termos gerais, cada vez mais desmotivantes, depois de um período de promissor desenvolvimento, e a vivência corporativa não é mais nem menos selvagem que noutras corporações. Contudo, a disciplina em si é extraordinariamente motivadora, seja ela perspectivada como descoberta (de objectos, mistérios, exotismos, tesouros) ou como construção (de conhecimento sobre outras versões de humanidade ou sobre as dinâmicas sociais que nos estão mais próximas). É profundamente excitante quando nos embrenhamos nela. Estranho, pois, a indiferença que se vem instalando, a falta entusiasmo e a entrega à rotina, ao ponto de ser incómodo a quebra da mesma.


Ontem, na televisão, vi pessoas a quem o corpo faltava, mas a quem sobra “alma” para saborear a vida. A Arqueologia vista e vivida simplesmente como um trabalho é como um corpo sem “alma”. E aí, face às condições actuais, é natural toda e qualquer desmotivação. Mas foi como trabalho que a perspectivámos no início? Foi como procedimento técnico rotineiro? Foi como fonte de rendimento? Foi como tal que ela nos atraiu? Dificilmente.


Estará a Arqueologia a ficar desalmada? Já não proporciona às pessoas aquela motivação e interesse original que lhes compense as agruras das condições de trabalho? Será que já não há vitalidade interna, contagiante dentro e fora da “corporação” e potencialmente pandémica? Ou toda esta percepção pessoal negativa resulta de expectativas exageradas ou de uma visão enviesada deste recanto da (ir)realidade social?

domingo, 18 de Outubro de 2009

0082 - Auto-representação


Na semana passada fui assistir a uma comunicação sobre o museu da Maré, um museu numa favela e sobre uma favela do Rio de Janeiro. Às tantas, o orador referiu-se à circunstância de se emprestarem peças ao museu. Peças que, quando necessárias, voltam a ser solicitadas e depois novamente cedidas para exposição.

São peças que saltitam entre dois papéis: o de serem e o de se representarem a ser, sendo aí também. Como um actor quando se representa a si próprio.

Nesta circunstância, as peças têm ainda duas vidas, uma de passado e outra de futuro, mas que se encontram em simultâneo num dado presente. Ainda existe o seu contexto de vivência e por isso ainda vive. Mas este anuncia-se moribundo ou em vias de extinção e, por isso, a peça ganha uma nova dimensão ontológica e entra para um novo contexto: um contexto de representação do anterior.

A “tradicional” peça de museu não apresenta esta dupla ontologia. Ela participou em determinada realidade hoje desaparecida e agora é apenas evocação dela. Mas o acelerar do tempo de mudança tem originado uma quase simultaneidade entre o ter e o perder, entre o ir a meio e nos sentirmos no fim. Gera-se, assim, uma situação em que a peça no activo pode ser chamada a exercer o papel de representação do seu próprio contexto de vivência ainda vivo, actuando nele de uma nova maneira.

"O Museu" é cada vez mais isso. Uma representação interveniente da e na sua própria existência. Uma forma de expressão da reflexividade contemporânea.

Com ela lá vamos prolongando alguns contextos de vivência. Alguns em condições dignas de vida. Outros simplesmente ligados à máquina.

terça-feira, 13 de Outubro de 2009

0081 - Histórias de rotina

A rotina é, por rotina, aborrecida. Mas ainda assim, por vezes, interessante. Depende da nossa atitude. Da procura do detalhe, da particularidade que nos prende o olhar e que tempera a costumeira, tornando-a um pouco mais saborosa.

De momento, é-me dado começar os meus dias sentado dentro do carro à espera. Não será exactamente o começar, pois já fiz aquelas coisas todas que a generalidades das pessoas faz após acordar (quando acorda cedo). Mas, digamos, trata-se da primeira tarefa do dia.

O que espero é para aqui irrelevante. Relevante é que espero. Que espero entre 5 a dez minutos (é a incostância da rotina, pois também ela tem margens de variabilidade entre as balizas que fazem dela rotina).

Também relevante para o assunto que aqui me trás é o local da espera. É novo. Uma praça conhecida da capital. Já a conhecia, portanto. Mas agora, aos poucos, vou-a observando e descobrindo novamente. E, curiosamente, o que de mais novo se me apresenta não é o que lá está estático, mas o que por lá se mexe e que nunca pude ver, pois também eu ali sempre estive em movimento.

São pessoas. Em poucas semanas sinto que conheço (não conhecendo, como diria Narciso Miranda hoje satirizado pelos “Gatos”) umas quantas pessoas que, para mim, já fazem parte daquela praça. São pessoas que, como eu, ali cumprem rotinas diárias.

Quatro são de uma regularidade que faria corar qualquer relógio suíço. Deixem-me apresentá-las: a menina estudante, o senhor do cão e as duas funcionárias. A estes quatro junta-se pontualmente (ainda não captei a regularidade) um padeiro.

A jovem estudante, carregando o seu dossier debaixo do braço, vestindo invariavelmente umas calças de ganga e calçando ténis, passa em frente do carro com um ar de falsa indiferença, abanando ligeiramente os cabelos compridos e encaracolados, como quem desfila consciente perante um público (também eles, seguramente, já deram conta da minha rotina). É uma rapariga de aspecto agradável, na casa dos seus dezassete ou dezoito anos, com tom de pele muito branco e cabelos entre o loiro e o ruivo (pelo menos aquela hora de um dia ainda anoitecido). Atravessa da esquerda para a direita, com o ar seguro próprio da idade.

O senhor do cão é alto e veste num estilo casual clássico. A meia idade é anunciada por uma careca evoluída, mas que ainda não encandeia. Tem um ar vagamente austero. Já o cão, que parece rafeiro, apresenta uma atitude mais descontraída (o que se compreende). É de tamanho médio e apresenta um pelo curto de onde sobressaem umas madeixas que lhe conferem um aspecto pouco atraente. O passeio é relativamente curto. Atravessam da esquerda para a direita e, antes que a minha espera termine, voltam a atravessar da direita para a esquerda.

Já as duas senhoras, que rotulei de funcionárias, atravessam da direita para a esquerda. A que normalmente passa primeiro é uma mulher madura, encorpada e baixa, de longos e bonitos cabelos pretos escorridos. Apresenta-se sempre de saias pelo joelho, deixando à vista umas pernas musculadas, próprias de quem trabalha muito em pé ou anda muito. Sempre com sapatos bicudos e de salto alto, terá tido uma beleza interessante quando jovem, da qual ainda mantém vestígios num corpo que se vai deformando e avolumando.

Já a segunda é mais nova, mas não menos volumosa. E está em claro processo de engorda, o que se reflecte nas calças que ameaçam descoser-se e no andar, feio, que faz lembrar o bambolear de uma pata. Aquilo definitivamente pesa-lhe. E vem sempre, sempre, a comer qualquer coisa que trás embrulhada numa prata.

Tal como eu, àquela hora, são elementos móveis que preenchem um cenário, gerando uma vivência de familiaridade que tem tanto de real como de irreal. Passam e provavelmente continuarão a passar diante de mim durante algum tempo. Trocaremos olhares. Tomaremos consciência da nossa mútua existência e deste nosso momento e espaço de rotina partilhada. E por aí ficaremos, como tanta outra gente em tantas situações semelhantes. Mas, quanto a mim, ao entreter-me com estes pensamentos naqueles breves minutos de espera, dificilmente voltarei a conceber aquela praça sem a associar àquelas pessoas e às especulações que sobre elas vou fazendo.

É o espaço indiferenciado transformado em paisagem.

segunda-feira, 5 de Outubro de 2009

0080 - Mascaradas

Acabei de ouvir, no noticiário da RTP, que Portugal está entre os países que melhor acolhe emigrantes. Ontem li no Expresso que Portugal está cada vez mais corrupto e que desceu 4 lugares no ranking mundial. Sinais de tendência contraditória.

Contudo, na sequência da notícia do acolhimento aos emigrantes dizia-se que essa avaliação era referente ao quadro legislativo e que faltava agora olhar para a realidade concreta e verificar até que ponto são correctas as queixas relativamente à exploração de mão de obra barata que nos chega de fora.

Pois... a tendência contraditória esbate-se.

É que entre a lei e a prática há sempre desfasamento. A primeira expressa intenções, desejos, ideias, valores, mas está quase sempre à frente ou atrás da realidade. É, portanto, máscara. E se sempre há uma estreita relação entre a máscara e o mascarado, devemos ter o cuidado de não tomar um pelo outro, mesmo numa sociedade em que o que parece é.

Pensaríamos que temos uma óptima Arqueologia (entre muitas outras coisas óptimas) se só olhasse-mos para o quadro legislativo que temos.

domingo, 4 de Outubro de 2009

0079 - Realismo



"Eu amo a noite, porque na luz fugida as silhuetas indecisas das mulheres são como as silhuetas indecisas das mulheres que vivem em meus sonhos. Eu amo a lua do lado que eu nunca vi.
Se eu fosse cego amava toda a gente."
(José de Almada Negreiros, "Frizos", Orpheu).

sábado, 26 de Setembro de 2009

0078 - O jogo das identidades

“... conhecer bem um estado que já não existe, que talvez nunca existiu e provavelmente nunca existirá e de que é, no entanto, necessário ter uma ideia justa para julgarmos bem o nosso estado presente.”

(J.J. Rousseau)

História, Antropologia, Etnografia põem-nos em contacto com o "outro". Nesse contacto construímos a nossa imagem dele, com a qual nos confrontamos e, por vezes, nos revelamos a nós próprios. Em Arqueologia também é assim. Afinal de contas, todo conhecimento é (ou gera) auto conhecimento.

domingo, 6 de Setembro de 2009

0077 - Pensar / Sentir



De momento ando por paragens alentejanas, mais concretamente em Reguengos de Monsaraz. Nos últimos dois dias tenho andado a preparar o sítio arqueológico dos Perdigões para a 2ª fase de prospecções geofísicas. Isto significa vaguear por 16 ha de sítio arqueológico a colocar estacas. Porque é um trabalho de “sapa”, de concentração não muito exigente, parte da mente fica liberta para vaguear também.


Ponto de encontro destes dois vagueares têm sido as centenas de materiais arqueológicos que por ali estão à superfície. A cerâmica e os restos de fauna estão presentes a cada passo. Um pouco por todo o lado aparecem utensílios de pedra polida, elementos de moagem e muitos outros tipos de artefactos. O chão prende-nos o olhar, tal é a abundância de vestígios. Mas é levantando esse olhar que o sítio ganha sentido.


Nos Perdigões percebemos a tentação e a volúpia da velha arqueologia (e de muito daquilo que nos levou a esta actividade), mas percebemos também a dimensão e prazer de uma disciplina de vocação social e antropológica.


É um prazer vaguear por ali e sentir e pensar aquele espaço. Porque todos os espaços devem ser sentidos para ser percebidos, mas também pensados para poderem ser sentidos (contrariando o anseio de John Keats, citado hoje no Expresso, que desejava uma vida de sensações em vez de uma vida de pensamentos).

terça-feira, 25 de Agosto de 2009

0076 - College London Hospital


Foi neste edifício, há 47 anos.

É engraçado o sentimento que desenvolvemos relativamente a um lugar quando nele sabemos que ocorreu algo que, de uma forma ou de outra, nos respeita. Estes locais formam uma espécie de constelação de lugares, a nossa constelação pessoal, através da qual nos posicionamos no espaço e nos arrumamos no mundo.

Somos a nossa trajectória por caminhos e lugares. A minha começou ali, naquele edifício verde e branco (premonitório).

Há quem diga que um hospital é, como os aeroportos, um "não lugar". Equívoco. Os não lugares para uns são lugares de outros. Tudo depende do sentido que lhes está associado; do que neles nos aconteceu ou acontece. Na verdade, não há "não lugares", ou melhor, todo e qualquer "não lugar" é um potencial lugar. É espaço indiferenciado à espera... de entrar numa paisagem ou numa constelação.

sexta-feira, 21 de Agosto de 2009

0075 - Novo (mais longo) ensaio sobre a cegueira



Passei por um turismo rural na Beira Alta. A lógica deste tipo de turismo é o visitante conviver com os donos dessas quintas e integrar-se, naturalmente até determinados níveis, nas vivências dessas propriedades.

A conversa ao pequeno almoço, na cozinha da casa principal, um antigo solar beirão, foi esclarecedora sobre a estupidez do uso do poder e aplicação da Lei em Portugal.

O meu anfitrião explicou-me que Portugal que está a matar a pequena agricultura, ao mesmo tempo que se diz promover o turismo rural, o qual, por sua vez, é sufocado e ridicularizado pela acção dos poderes do mesmo Estado português. E exemplificou.

Tem uma casa de turismo rural na sua quinta. Mas nós, os turistas, não podemos comer dos bolinhos caseiros, ou ambicionar a um caseiro jantar cozinhado pela anfitriã. A ASAE não deixa. Quanto aos deliciosos docinhos caseiros (sim, fui um consumidor enganado que consumiu um docinho que não vinha em recipiente fechado, data de validade e outras protecções imprescindíveis à vida, mas que sabia ao fruto), são igualmente proibidos.

Mas a cereja no bolo foi quando me disseram que tentaram recuperar um lagar de azeite tradicional, mas não o puderam fazer, pois madeira é proibida, pois os produtores locais (clientes do lagar) teriam que ter mecanismos de embalar o azeite de acordo com os requisitos oficiais (alguns produzem 5 litros de azeite), e que ninguém poderia estar na área de prensa a assistir.

Mais. Quem tem animais, nem para consumo próprio os pode abater sem mais. Uma simples galinha, para ser morta, tem que se comunicar e obter a autorização da Junta de Freguesia. Isto para se estar dentro da lei e não sofrer as consequências da acção de um diligente inspector da ASAE, avaliado e recompensado à multa.

Ainda mais. Um pobre agricultor local, cuja a agricultura de subsistência é isso mesmo – um complemento para a sua subsistência – foi impedido de entrar na feira para vender uns punhados de feijões porque iam em sacos de pano e não embalados em plástico e com toda a informação. O senhor tentou depois pagar com os ditos feijões num acto de troca directa, último recurso para obter o que necessitava.

E comer os produtos fresquinhos da quinta? Impossível.

Em suma, fui elucidado de como a aplicação estúpida de normativos europeus está a matar o mundo tradicional português, resultado da acção de um Estado que simultaneamente afirma que é aí que está uma boa parte do potencial turístico português. Os tecnocratas do poder desconhecem o país. Arrisco a dizer que não gostam do país. Ou estão ao serviço dos grandes industriais, que querem colocar os seus produtos normalizados em todo lado, até nas quintas de turismo rural. E lá teremos nós que, qualquer dia, comer uma pizza congelada, mas legal, requentada num forno (que provavelmente não poderá ser a lenha), numa quintinha onde os mémés serão de plástico.

A má aplicação do espírito da lei é bem pior que a não existência da dita.
Que nos resta? Resistir. Desobedecer. Ser fora da lei.

Não se trata de aderir a contrafacção, a pirataria de CDs ou vídeos, ou outro crime do género. Trata-se de preservar, viver e apreciar um estilo de vida tradicional, que valorizamos e sentimos como nosso património identitário.

Entretanto, o interior vai morrendo e, com ele, muita da cultura portuguesa, a qual, precisa mais do que nunca, dos seus Zés do Telhado.

PS - Há meses, numa tasca perto do local de trabalho, pedi um "comprimido" (designação brincalhona fornense para uma mistura de um martini com uma imperial). O dono colocou o martini na sua garrafinha e a imperial no seu copo à minha frente e disse: "Misture você, que se for eu a ASAE considera adulteração de produtos."

terça-feira, 21 de Julho de 2009

0074 - (Curto) Ensaio sobre a cegueira

Estou em escavações nos Perdigões (ver aqui: http://www.nia-era.org/). Hoje recebi o presidente da Estónia numa visita à sala museu dos Perdigões, instalada na torre medieval da Herdade do Esporão. Uma visita rápida, que o protocolo não dava para mais. Ainda assim, deu para uma pergunta de actualidade: quando eu falava sobre a investigação que ali se realizava e do papel do proprietário (Esporão S.A.) no financiamento dessa investigação, o presidente perguntou-me se não havia “public funding”. Naturalmente que lhe disse que já não há e que a actualidade da política cultural, no que à Arqueologia diz respeito, prima pela ausência.

Dizia isto (não nestas palavras, naturalmente) e pensava de imediato no “mea culpa” do nosso primeiro e nas “movimentações culturais” de última hora.

Lembrei-me logo a seguir do ex-ministro das finanças Campos e Cunha (que cedo quis sair), que sublinhou recentemente a importância estratégica para Portugal das indústrias culturais e que referira especificamente a necessidade de aproveitar o património arqueológico português.

E a seguir constatei: o presidente da Estónia estava ali, num centro interpretativo de património arqueológico. Porquê? Possivelmente por múltiplas e convergentes razões, mas a revelar uma situação inequívoca: o potencial do património arqueológico. Naturalmente para quem o saiba tornar útil, ou seja, que o saiba constituir como património.

terça-feira, 14 de Julho de 2009

0073 - Sobre a história a preto e branco


Esta é uma excelente tira do Calvin. Utilizei-a na contra capa da publicação da minha tese de doutoramento, pois reforça alguns dos conteúdos que se encontram lá dentro.
Aprecio, sobretudo, a exposição, a denúncia se quiserem, da função ideológica do conhecimento científico (sobretudo do social, mas não só), que, entre as funções “mais funcionais”, tem a de justificar preconceitos actuais.

Na Arqueologia (a minha loja) isso é por demais evidente. Mas na história também.
Vem isto a propósito de um documentário que ontem vi sobre escravatura. O programa centrava-se numa temática: a tradicional condenação centrada no tráfico do Atlântico tinha ajudado a esquecer o tráfico sahariano para o mundo árabe. O que o documentário sublinhava, recorrendo a fontes e estudos (de historiadores negros e muçulmanos, mas também alguns europeus), é que o tráfico de escravos da África Negra para o Norte de África e Arábia, realizado por muçulmanos, não só precedeu o europeu, como se prolongou bem para além dele, até ao século XX.

Mas o documentário vai ainda mais longe, e questiona o envolvimento dos próprios negros africanos (concretamente as elites das diferentes épocas e regiões do interior africano) no desenvolvimento desses circuitos de escravatura.

Conclui o documentário que a realidade é mais complexa e dura do que aquela que é habitualmente retratada, onde a existência de uns bons e uns maus, clara e inequivocamente identificados, ajuda a apaziguar os espíritos e sustenta determinadas responsabilizações políticas e morais de interesse. A realidade, contudo, oferece-se bem mais cinzenta.

Naturalmente, as reacções a esta nova versão da história (que de facto também não é assim tão nova – será nos media de grande divulgação) serão diversas. O mundo ocidental respirará o problema com um pouco mais de alívio, acompanhado que agora fica no transporte desta cruz. Árabes e africanos gostarão menos e estarão mesmo inclinados a suspeitar da bondade do documentário, perguntando-se (e provavelmente respondendo-se) se não estaremos ante uma tentativa de branqueamento (literal e metafórico) de uma situação histórica que envergonha e constrange o mundo Ocidental (lembre-se que Obama visitou recentemente uma prisão de escravos em África e a comparou a um campo de concentração Nazi – uma comparação pateta e pouco própria para o rigor histórico que se exige a alguém com aquela responsabilidade).

Mas a conclusão é clara, o conhecimento será sempre revisionista e comprometido. Será sempre uma versão (ou conjunto de versões) da verdade e nunca a verdade. A sua “objectividade” será apenas garantida pela reflexividade crítica que sobre essas versões formos capazes de fazer, permitindo que os discursos do saber apareçam ancorados nas suas condições sociais de produção.

PS - Mas apesar de todo este relativismo, e como disse Berenjeno "as histórias são múltiplas, mas apesar de tudo Auschwitz continuará a ser uma aberração". E a escravatura também.

quinta-feira, 2 de Julho de 2009

0072 - A eterna simbologia taurina

Resolvi fazer um parêntesis nas temáticas que mais têm inspirado este blog, para me pronunciar sobre o acontecimento político do dia: os “cornos” com que o ministro Manuel Pinho atacou o deputado Bernardino Soares e a consequente demissão ministerial.

Concordo com as acusações de gravidade formal ao acto. E dito isto, prefiro centrar-me nos outros lados. Não porque o dito ministro ou o seu governo me sejam simpáticos, mas porque a política portuguesa me é antipática.

O ministro fez uns “cornitos” ao deputado Bernardino. E pronto! O circo está instalado.
E, no entanto, os deputados, que agora nos lembram que são representantes dos cidadãos, portam-se de forma habitualmente deseducada em todas as sessões parlamentares (já para não falar dos abusos do costume), onde determinadas formulações verbais rivalizam, quando não ultrapassam, a referida cornadura.

E não se demitem, nem pedem demissões.

Mas o que mais me interessa aqui sublinhar é a futebolização destas coisas sérias, como a política, numa altura em que o futebol é escândalo para a moral pública.

Que quero dizer? O seguinte: quem já andou pelos campos de futebol sabe que o que se passa lá dentro entre jogadores nem sempre segue as regras da boa conduta. Não poucas vezes a provocação baixa visa testar os nervos do adversário, visa gerar descontrolos, provocar acções desajustadas às regras e à moral, para depois se evocar as regras e a moral para condenar a reacção. Lembram-se do Zidane no campeonato do mundo? (uns lembrar-se-ão, outros, porque são coisas do futebol – logo pretensamente não deste mundo – não saberão). São estratégias pensadas e planeadas. Como aqueles carros da polícia que “picam” os condutores para a seguir os multarem.

Mas é assim. Não basta jogar bom futebol (ou ser bom condutor). É preciso ter estofo para resistir à provocação, ao comportamento baixo, à adjectivação gratuita e ofensiva. E esse foi o problema do ministro: teve um momento de falta de paciência e controlo. Foi mal comportado? Foi. Mas que os deputados (ou uma parte muito significativa deles) mereceram o gesto...

Bom, eu, que aparentemente sou representado por algum deles, não me senti particularmente ofendido. Até pelo contrário. Achei divertido.

Talvez isso revele falta de sentido de Estado. Falta de sentido institucional. Falta de uma série de coisas. Mas certamente não falta de capacidade de entender o que pode levar um homem naquelas circunstâncias a fazer uma coisa daquelas. Pessoalmente, sinto-me constrangido com aquele tipo de debates (que nunca o são seriamente). Por isso, e apesar de reconhecer o carácter formalmente desadequado do acto e de até achar o senhor inábil para o cargo que ocupava, me senti muito mais representado no seu acto que pelas “virgens ofendidas profissionais” que de imediato se fizeram ouvir.

O que me ocorre? Dizer: “Boa Manel”. Como eu percebo a tua falta de paciência...

domingo, 21 de Junho de 2009

0071 - Tecnocracia hedonista


O parceiro preferido, e natural, da actual tecnocracia é o hedonismo. O “zeitgeist” (espírito dos tempos) tecnocrata quando pica o ponto de saída diz-se cansado das coisas sérias ou pesadas da vida, acusando-as de lhe moerem a alma: se a realidade é difícil, então o que é preciso é divertimento que a faça esquecer, é preciso morfina. E a já famosa crise apenas reforça a argumentação em favor das práticas hedonistas, as quais se vão tornando hegemónicas numa cultura suave e levezinha.

De facto, há muito que a cultura (que hoje sabemos erro socrático) se foi transformando, mesmo entre a “elite”, naquilo a que Eduardo Lourenço chamou a “Cultura Disneylândia”, ou seja, um modo de vida e estar fundado exclusivamente no prazer e divertimento suave. Tudo o que esforce as celulazinhas cinzentas e nos leve de volta às circunstâncias da vida e do mundo, procurando reflectir e conhecer, é um aborrecimento rapidamente descartado.

A boa vida é uma vida de divertimento e divertimento é festa e descanso cerebral. O problema é que o cérebro tecnocrata não está muito mais acordado. Pelo contrário, vagueia meio ensonado aplicando receitas e mais receitas, despertando um pouco sempre que o rigor do receituário está ameaçado e, às vezes, nem isso.

Tecnocracia e hedonismo andam, assim, de braço dado no espírito dos tempos.

terça-feira, 16 de Junho de 2009

0070 - Prodigiosa realidade


Para olhar certo património com outro olhar...

“Do Jardim Zoológico não tenho recordações de animais, mas dos amores furtivos a que obrigava a moralidade de então. E quando vejo a Torre de Belém lembro que nesse tempo o guarda, a troco de cem escudos, emprestava a chave do terraço do monumento. Aí ao ar livre, vendo passar os navios no Tejo, faziam-se cópulas que devido à solenidade do lugar e aos nervos da ocasião se tornavam duplamente históricas. Uma hora depois – raro a horas voltariam a ser tão curtas! – o guarda batia impiedosamente à porta, e era pagar de novo ou sair. Modelo de descrição, quando a dama descia a escada ele voltava as costas, para não ver”

(J. Rentes de Carvalho
“O Desaparecer de Lisboa”, Revista de Portugal, nº4, 2007, p.11)

... e para um novo sentido do “ficar a ver navios”.

sexta-feira, 12 de Junho de 2009

0069 - 69


Tenho-me pronunciado contra a tecnocracia que invade o mundo em geral e o meu em particular. De pouco me tem valido. É natural. Por alguma razão ela é “cracia”, ou seja poder.

Está, contudo, inscrita no meu código genético (expressão que não deve ser levada à letra) essa dificuldade em me deixar aprisionar pelo pensamento tecnocrático, ao ponto de quase (injustamente, reconheço nos momentos de maior condescendência) lhe recusar o título de pensamento.

A tão proclamada morte da ideologia, que os resultados das eleições europeias sublinham, é um dos sintomas desse triunfo tecnocrático. A lógica produtiva, submissa à concorrência, deveria ser criativa e gerar novidade e qualidade. Gerar progresso e desenvolvimento. Mas tem gerado o contrário. A competição tem baixado os níveis. Todos eles. Dos financeiros aos intelectuais. Os exemplos de topo, que servem para argumentar em favor do sistema, não escamoteiam o que se observa a noutros níveis, os quais constituem, de facto, a base estrutural: a mediania e a mediocridade tecnocrática imperam, porque se adequam à sobrevivência no sistema.

A razão, dizem, está a Oriente, num mundo que compete com o ocidental no produto, mas paga a taças de arroz. Que tem uma fossa maior que a do Mindanau, entre os miseráveis que trabalham e as mentes brilhantes que rivalizam e ganham no campus academicus ocidental. O desequilíbrio (ou a deslealdade - e só agora, que é em seu desvafor, o mundo ocidental a classifica como tal) das relações à escala global passa, de forma pandémica, às escalas regionais e locais.

Face a essa concorrência desleal, dizem-nos que a nossa salvação está na inovação e na qualidade, na criatividade. Mas como atingir esses desígnios numa sociedade rendida à tecnocracia?

terça-feira, 2 de Junho de 2009

0068 - Infertilidades


A caminho de Serpa, para ministrar mais uma formação, fui ouvindo na rádio uma conversa com um médico e investigador sobre uma doença antiga, mas só recentemente perspectivada como tal: a infertilidade.

O tal médico (João Luís Carvalho) acabou de realizar o primeiro levantamento sistemático do problema da infertilidade em Portugal. Falando desse estudo, forneceu vários números sobre a situação portuguesa. Dois chamaram-me (e a ele também) particularmente à atenção.

Numa pergunta sobre a que razões atribuíam as pessoas inquiridas (cerca de 10 000) a infertilidade, mais de 40% responderam que era porque Deus não quis.

Noutra, sobre se confiavam na ciência para resolver o problema, mais de 70% responderam que sim.

A contradição parece evidente. A primeira parece ainda exprimir, talvez mais que uma religiosidade concreta, a circunstância mítica que historicamente sempre envolveu o nascimento, a reprodução. A segunda, o protagonismo que o conhecimento científico, na sua vertente aplicada (sublinhe-se), tem vindo a assumir na sociedade actual, ocupando o lugar de crenças tradicionais.

Deus (ou outras forças ocultas) ainda existe, mas já pode ser contrariado pelo homem, diríamos.

Este posicionamento “híbrido” levou-me a pensar novamente sobre um assunto sobre o qual escrevi há pouco tempo: a divulgação científica. Perguntava então se a tão proclamada apetência pública por conhecimento científico não estaria a ser sobre estimada. Se de facto o público em geral não se interessa sobretudo pela vertente utilitária do conhecimento científico, pelas suas aplicações “práticas”, funcionais, mostrando-se desinteressado, quando não enfadado ou mesmo antagónico, perante os pressupostos teóricos e metodológicos que sustentam esse pragmatismo.

Se sim, impõem-se a pergunta: como cativar esse público para o exercício de uma cidadania que muitas vezes lhe pede que se pronuncie e opte sobre alternativas cuja base de sustentação é de natureza científica? Por outras palavras, como poderemos fazer crescer a nossa democracia participativa?

Este até era um bom ano (de eleições) para se discutirem essas coisas, mas padecemos de outras infertilidades.

segunda-feira, 25 de Maio de 2009

0067 - Biografias


Os arqueólogos são biógrafos dos objectos, das estruturas, dos edifícios, dos sítios, das paisagens. Fazem estas biografias para dar conta da vida dos homens que, como “deuses”, as criaram e condicionaram.

Mas como a criação foge com frequência ao domínio do criador, estas biografias têm que estar atentas a esses processos de emancipação das “materialidades” e aos momentos em que deixam de ser consequência para ser causa, tornando-se “deuses” no lugar dos “deuses”, ganhando um protagonismo muito próprio.

E ao lermos estas biografias, não poucas vezes nos apercebemos desta inversão em coisas que nos rodeiam. Por exemplo, quando uma actividade se emancipa das razões que lhe deram origem e a justificaram, para se impor por si só. Um fazer que se justifica pelo simples fazer, ou mesmo um fazer que passa a justificar outros fazeres, cada vez mais alienados das razões e dos sentidos originais, dos quais é fácil, com o tempo, irmos perdendo o rasto.

Fazer a biografia é, então, importante. Lembrar o que nos levou a começar...

quinta-feira, 21 de Maio de 2009

0066 - Ler


Costuma dizer-se que em Portugal se lê pouco. Mas “pouco” ou “muito” são considerações de natureza eminentemente relativa. Assim, poderemos considerar que se lê pouco em termos da quantidade de pessoas que habitualmente lê e do número de horas que dedica à leitura. Mas também poderemos considerar que se lê, hoje, muito mais do que se lia há umas décadas atrás (mais gente instruída, mais livros e mais baratos, etc.). Finalmente, poderemos considerar que se lê mais quantidade e menos qualidade (“literatura” light, “literatura tóxica”, “literatura cor de rosa”, etc.). O fenómeno da leitura em geral parece-me de complexa avaliação na actualidade, pois apresenta seguramente muitas variáveis que têm que ser consideradas.

Já no que respeita à leitura técnico-científica profissional o caso parece mudar de figura, já que a ausência ou a prática de leitura se tornam transparentes no trabalho produzido no plano dos processos, no plano do realizado e no plano do ideado.

Na minha área disciplinar, que até se inscreve no âmbito das ciências sociais (pois trata de pessoas e não de coisas, embora aborde as primeiras a partir das segundas), a tendência para a não leitura (tendência partilhada por outras áreas disciplinares segundo ouço dizer) é cada vez mais acentuada. Durante a formação lê-se pouco; depois lê-se ainda menos.

Ora a leitura, não sendo o único, é, no que respeita à profissão e à ciência, um dos principais meios de alargamento de horizontes, de aquisição de conhecimentos, de desenvolvimento intelectual. E no entanto, muita gente “consegue” estar a fazer um trabalho sem sentir a necessidade, o sobressalto, o dever, o interesse de procurar ler sobre o assunto que tem em mãos. As consequências, para o “pobre” do trabalho, para a disciplina e para os destinatários finais desse mesmo trabalho, são de tal forma óbvias, que me dispenso de as enunciar aqui.

O que sublinho, sim, é a tranquilidade com que, em ignorância, se trabalha sem que se vislumbre, em muitos (felizmente não em todos), essa necessidade e esse interesse. Talvez a Universidade devesse reflectir sobre se esta não é matéria sua: educar para a responsabilização profissional, gerando nos seus licenciados um sentimento de incómodo e/ou de curiosidade quando sentem que não sabem, que desconhecem, mas têm que fazer. Um sentimento que, em face das circunstâncias com que são confrontados, os vá motivar, os vá compelir a ler. Seja porque não controlam a sua curiosidade e desejo de saber, seja porque têm um responsável receio de fazer disparate.

Os menos responsáveis serão os empregadores, embora não se possam excluir na íntegra à responsabilização, pois são parte activa no contexto de degradação das condições profissionais que, de várias maneiras, incentivam à não leitura. Aliás, para muitos, essa circunstância até pode ser considerada uma mais valia. Como sublinhava Calvin, quanto mais se sabe mais difícil se torna tomar uma decisão; quando se fica informado começa-se a ver zonas cinzentas e complexas; começa a perceber-se que nada é simples e transparente; para concluir que o conhecimento é paralizante (para quê complicar?). Esta perspectiva, infelizmente, informa as atitudes e práticas de muitos “pragmáticos”.

Mas há outra maneira de olhar para o conhecimento: a que lhe acrescenta à aptidão de resolver as capacidades de potenciar e de criar; de “valor acrescentado”. Para quem assim entende, estimular a leitura deverá ser uma opção estratégica. Não se trata da tradicional formação, na qual, de tempos a tempos, os colaboradores são chamados (ou simplesmente convidados) a participar e no âmbito da qual se podem fornecer algumas referências bibliográficas. Penso em planos de leitura orientados, organizados por temas, áreas ou cronologias. Sérios, bem pensados, bem estruturados e exequíveis. Ou seja, uma forma (entre outras possíveis) de passar do diagnóstico ao tratamento do problema.

Naturalmente, seria mais fácil, mais económico, mais proveitoso e mais lógico, se o assunto fosse atacado mais a montante. Mas as “barragens” são, hoje, pouco populares no nosso sistema de ensino e há cada vez menos castores.

segunda-feira, 18 de Maio de 2009

0065 - A irrelidade atrevida


A ignorância é e sempre foi atrevida (entre outras coisas).

Parece, agora, que gente de uma área profissional que recentemente emergiu (10 ou 12 anos não é nada, como sabemos) a partir de um contexto de prática científica e social assente essencialmente no trabalho de voluntariado (que, diga-se, não só “formou” a disciplina em questão, como todos aqueles que agora formam os tais profissionais), se pronuncia violentamente contra a prática do voluntariado nesse sector de actividade (que antes de ser económico e profissional era científico e cultural, é bom lembrar).

É triste que quem se apresente como discípulo e praticante (ainda por cima pretensamente profissional) no âmbito das ciências históricas, tenha tanta falta de perspectiva histórica sobre a sua própria condição sócio-profissional e sobre o papel da "sociedade civil" em qualquer área profissional que tenha uma vocação social e cultural marcante.

Talvez essa insuficiência se fique a dever ao ambiente demasiado “profissionalizador” que se vive na formação universitária, onde cada vez mais se faz sentir a falta de um sentido de missão, de uma abnegação idealista e de paixão pelo que se faz, coisas tão comuns na “antiga” (e aparentemente anacrónica) disponibilidade para o voluntariado.

Pobre da profissão que vê um perigo no voluntariado que se gera à sua volta. Não por causa dos voluntários (que apenas a enriquecem), mas porque tem no seu interior quem assim pense. Está tudo dito e nem sequer vale a pena chegar a discutir a qualidade de muitos dos que se apresentam como profissionais, mas pouco ou nada sabem.

É a mediocridade profissionalizada.