Em 1943, um livro intitulado “O problema da Filosofia Portuguesa, de Álvaro Ribeiro, marcou o início de uma polémica sobre a existência de uma filosofia nacional.
Eduardo Lourenço e Manuel Antunes estão entre os que repudiaram a ideia. O primeiro questionou se seria possível uma filosofia nacional se os seus temas são universais, o segundo afirmou que “ se é nacional não é filosofia; se é filosofia não é nacional.”
A questão que de imediato se me colocou é se poderíamos ter um debate destes centrado na Arqueologia, ou melhor, se poderíamos colocar uma questão destas, pois debater estes temas é coisa que os arqueólogos cá do burgo não apreciam muito (afirmação que parece já querer começar a responder à questão).
Antes de mais, convém dizer que o problema não se coloca no mesmo patamar para a Filosofia e para a Arqueologia (ou qualquer outra ciência), porque a filosofia não está no patamar científico; está, como diria Gasset, acima, não tendo que se sujeitar aos limites impostos pela exactidão e por uma qualquer porção de realidade: “... a ciência experimental é apenas uma exígua porção da mente e do organismo humanos. Onde ela se detém não se detém o homem.” e “(...) para que um conjunto de pensamentos seja filosofia, baseia-se em que a criação do intelecto perante o Universo seja também universal, integral – que seja, em suma, um sistema absoluto” (Ortega y Gasset).
Por outras palavras, as ciências lidam com questões particulares do Universo, a Filosofia assume-o, na integralidade que o constitui, como o seu objecto de análise. Torna-se, pois, evidente qual o partido que Gasset tomaria no debate acima referido.
Mas se parece congruente que, ao nível do objecto, a Filosofia não possa ser nacionalizada, pergunto-me se ao nível da sua prática, com consequências no resultado, essa questão não fará sentido? Responder não, creio, obrigaria a pressupor a existência de uma pan-disciplina desvinculada das suas condições sociais de produção, que todos sabemos bem regionalizadas e nacionalizadas. E nisto, talvez a Filosofia não seja tão diferente da Arqueologia.
Poderemos, pois falar de uma Arqueologia Portuguesa? Dificilmente seria sustentável que a organização do edifício (ou bairro) da produção de conhecimento não lhe conferisse um cunho particular. Antes de mais, e apesar dos problemas com que lida serem de maior escala, trata-se de um conhecimento que lida com realidades fortemente vinculadas a territórios específicos. Enquanto problema, tratar o megalitismo em Portugal ou na Irlanda não é a mesma coisa que tratar a aceleração de partículas em Portugal ou na Irlanda. Mas mesmo que fosse, rapidamente deixaria de o ser, pelas particularidades sociais que envolvem a produção do conhecimento arqueológico: a forma como se organiza administrativamente a produção desse conhecimento (entenda-se os tipos de instituições que fazem Arqueologia, a sua organização específica, os condomínios administrativos da disciplina – os seus vizinhos disciplinares -, etc.), a legislação existente, a forma como se estrutura a tutela e a profissão, a sua demografia, o volume e orientação do investimento público e privado, a tradição e o enraizamento disciplinar, a receptividade que a disciplina tem no seu contexto social nacional, a sua tradição académica.
Tudo isto, e mais algumas coisas, acaba por conformar o conhecimento produzido pela Arqueologia em Portugal, dotando-a de uma personalidade própria, conferindo-lhe um cunho que a distingue relativamente a outras Arqueologias, mesmo quando apenas procura copiar o que se faz lá fora.
Poderemos, pois, pensar numa identidade para a Arqueologia portuguesa? Penso que sim. Mas não uma identidade essencialista, entenda-se. Uma identidade constituída de diversidade, geradora de pulsões conflituantes, relacional e em permanente reconstrução. Dinâmica e contingente como qualquer outra identidade.
Quanto ao que, concretamente, particulariza a Arqueologia Portuguesa, isso fica para outra(s) ocasião(ões), que o post já vai longo.