Quarta-feira, 31 de Dezembro de 2008

0023 - Irrealidades para 2009

Nos tempos que correm, e talvez também nos que já correram, as pessoas parecem sentir felicidade apenas com o alcançar daquilo ou daqueles que gostam. Surpreendentemente, parecem ser insensíveis ao simples privilégio que é ter algo ou alguém de que ou quem gostar.

Sem dúvida que a não concretização do desejo gera frustração, um sentimento de se ser incompleto. Mas também não é menos verdade que a consumação, o alcançar, é igualmente apenas a parte terminal, a que completa. Não há razão, pois, para tal desvalorização do inacabado.

Remeter tudo para o resultado final, como faz a actual ideologia, é não perceber, não entender, não captar, a riqueza e o carácter sublime do princípio que não se completa.

A paixão não correspondida, a profissão não realizada, o negócio não concretizado têm a sua beleza e riquezas próprias, as quais tendemos a não saber reconhecer por nos centrarmos no resultado. Mas acaso não somos capazes de apreciar as belas jogadas que não dão em golo?

Poder e ser capaz de gostar são privilégios cuja valorização deveríamos ser capazes de fazer. Independentemente das correspondências finais que obtivermos.

Que desejo, pois, aos leitores deste blog para o ano de 2009? Que valorizem o gostar, o apaixonar, o amar, o fazer, o lutar, o criar, independentemente do que for alcançado. Viver e ser feliz é muito mais que obter resultados. É sobretudo tentar construí-los.

Bom 2009.

Terça-feira, 30 de Dezembro de 2008

0022 - Irrealidade 13

Não é infrequente ouvir os académicos queixarem-se contra os malefícios de uma sociedade vergada ao consumo e ao Mercado, onde a existência está constrangida pela necessidade de vender para sobreviver. Aliás, graças à actual conjuntura o volume aumentou. E no entanto, todo o mundo académico actual se estrutura de acordo com esse sistema.

Isto, naturalmente, não pode deixar de se reflectir na produção científica. O objectivo agora é produzir e conseguir visibilidade e aceitação no mercado. Tal como no Jet Set se metem cunhas para entrar numa festa, na academia suplica-se para ser convidado para aqui, manobra-se para se ser integrado ali, reza-se para que não se esqueçam de nós acolá e amua-se quando se é preterido. O marketing está hoje presente e em força na vida académica e o discurso científico tem que se adequar à procura. Mesmo o alinhamento teórico é cada vez menos ideológico e mais estratégico em termos de carreirismo e “saída”.

Terá sido sempre um pouco assim, é certo, mas, mais que alguma outra vez na história, a vertente social corporativa e económica da produção de conhecimento (e menos a ideológica e política) suplantou a “nobreza” intemporal dessa dimensão da existência humana.
A competição no mundo académico e científico é tão ou mais feroz que no mundo dos negócios e só por presunção ou incapacidade de se confrontar com o espelho é que a academia se pode achar exterior ao mundo do Mercado e criticá-lo nas suas infâmias. Há muito que vive e abusa dos predicados desse mundo.

A produção científica tem que gerir-se e vender. Vender dentro da comunidade restrita que a produz. Vender na sociedade que a sustenta, sempre numa perspectiva do útil material. É, pois, natural que seja a dimensão pragmática da ciência, e não a contemplativa, a que triunfa de momento. É a própria estruturação da produção de conhecimento (e do ensino associado) que se está a “pragmatizar”. Logo, não é de estranhar que todas as distâncias entre as Ciências Sociais, de natureza mais analítica e menos pragmática, e as restantes se alarguem, ou que as primeiras se venham progressivamente convertendo a uma percepção mercantilista e estatisticamente contabilizável da sua utilidade social.

É engraçado que uma das minhas agradáveis imagens televisivas de infância seja a do anúncio do “Homem da Regisconta”. Sempre achei piada àquela silhueta negra e à música que a acompanhava. Naturalmente, na altura não percebia o significado daquela imagem nem o futuro que anunciava.

Mais recentemente, uma imagem semelhante surgiu no imaginário português: o Homem SONAE. Com ele, a gestão tornava-se a disciplina rainha de uma sociedade cada vez mais organizada e regida pelo economicismo e utilitarismo imediato, material, físico.

E perante este domínio incondicionado do pragmatismo mercantil, a conversão (ou cedência, se quiserem) da academia é dramática, pois nessa dimensão institucional está ainda depositada uma boa parte do mecanismo equilibrador do sistema. O ambiente criado é propício à emergência da ironia. E ela aí está.

O pragmatismo utilitarista, não é um mal. Bem pelo contrário, é uma atitude natural, saudável, de estar no mundo. Mas como muitas outras coisas, torna-se atrofiante e mortal (para dimensão humana da vida humana) quando excessivo e imperial. Em última instância, conduz à total perda de identidade. Dou, produzo, penso o que o mercado quer, aquilo que ele, na sua massa alienada, entende ser-lhe útil. Demito-me de ser eu e transformo-me num Zeling (versão Woody Allen de camaleão – para quem não saiba). O “I did it my way”, expressão máxima do self made men Americano é, frequentemente, um paradoxo.

Como voltar a reequilibrar as coisas, se as instituições com essa vocação estão a sucumbir? Será possível fazê-lo a partir de outras, menos vocacionadas?

Segunda-feira, 29 de Dezembro de 2008

0021 - Irrealidade 12

É comum, hoje em dia, expressar-se a ideia de que o profundo pragmatismo e utilitarismo em que vivemos, ou somos forçados a viver, é resultado de uma progressiva, mas aparentemente imparável, americanização do mundo. Ouvimos isso a Steiner hoje, como a Gasset há mais de meio século atrás. O funcionalismo e o utilitarismo nos termos em que os conhecemos hoje, isto é como uma ideologia, são, contudo e em minha opinião, uma construção anterior ao nascimento dos UEA e bem europeia. Diria mesmo que o nascimento dos UEA é já, em si, uma manifestação dessa ideologia nascente no seio da burguesia oitocentista. E foi no século XIX, o grande século da Europa no mundo, que ela se consolidou. Tem, pois, na Europa o seu berço e nos EUA o seu amplificador e redistribuidor.

Steiner queixa-se do facto de os EUA estarem a atrair os melhores cérebros europeus e assinala a situação como grave para a Europa, sublinhando a necessidade premente, de sobrevivência mesmo, de se criarem condições para estancar essa hemorragia, a qual acontece há décadas. A Europa sempre teve estes problemas, criando situações históricas de autofagia da sua massa crítica e criativa, como aconteceu durante a inquisição e durante a preparação e concretização da 2ª Grande Guerra. Mas no entanto sempre produziu esses grandes cérebros, mesmo nas condições mais austeras que impôs a si própria. A sua autofagia nunca pôs em causa a sua fertilidade. Porquê? Talvez por causa de uma coisa que sempre me pareceu um cliché, mas que hoje vejo de maneira diferente: a cultura clássica (muito concretamente a grega) e a sua tendência para o pensamento contemplativo.

Está enraizada em nós e será por isso que, mesmo num mundo cada vez mais dominado pelo consumo e pelo útil, se continua a sentir essa pulsão libertadora em busca do que está para além da utilidade. Como diria um pirata conhecido: “give me that horizont” .

Ou como dizia Gasset:
“A verdade é (...) que não existe tal definitiva dualidade [entre útil e supérfluo] e a própria vida, inclusive a vida orgânica ou biológica, é, ao fim e ao cabo, incompreensível como utilidade, somente se explica como um imenso fenómeno desportivo.”

Sábado, 27 de Dezembro de 2008

0020 - Irrealidade 11

Hoje cheguei, uma vez mais, à América pensando que ia para a Índia. É natural. Na verdade, a Índia é “apenas” um horizonte que nos motiva a agir e nos orienta o rumo. E como todos muito bem sabemos, por mais que caminhemos na sua direcção nunca chegaremos ao horizonte, porque ele se transfigura a cada passo que damos.

Será sempre nas Américas, e não nas Índias, que nos faremos felizes e onde seremos consequentes. A Índia é apenas uma notável utopia que se cumpre não se cumprindo, um horizonte que se atinge não se atingindo. Sem paradoxo. Em todas as vertentes das nossas vidas.

Sexta-feira, 26 de Dezembro de 2008

0019 - Irrealidade 10

Eu, que sou agnóstico, queria aqui sublinhar a importância e a oportunidade com que a Igreja Católica, ao seu mais alto nível, tem vindo a sublinhar a importância estrutural do sistema de ensino e a denunciar a degenerescência que o afecta. A incapacidade que políticos, sindicalistas, professores, pais e (talvez menos responsáveis, mas não inimputáveis) alunos, revelam para perceberem o carácter fundamental (o termo é para ser entendido em toda a sua carga significante) da educação para a sustentabilidade do Regime Democrático, para o bem estar social e viabilidade do país, é por demais evidente. É dramático, para a República, o estado a que chegou um dos paradigmas em que assenta a ideologia do regime desde as suas raízes iluministas: o de que a liberdade reside nas competências intelectuais de cada um, as quais se desenvolvem através de um sistema de educação capaz de promover o desenvolvimento intelectual e a autonomia crítica. A presença da Igreja, que historicamente se assenhorou do ensino como mecanismo de reprodução de poder e da sua preponderância institucional e social, na linha da frente na crítica à actual situação, perante o caos que se vive no sistema de ensino, só pode significar o falhanço absoluto da República e da Democracia em tomar conta daquilo a que já chamei a sua espinal medula.

As patéticas discussões de cada caso, como o da recente pistola de plástico, apenas reforçam a ideia de deriva. Alguma vez, há 20 ou 30 anos, estas ocorrências seriam casos de notícia e debate nacional, em vez de resolvidos a contento no seio de cada escola? Quando situações como esta são abertura de telejornal e de divisão pública entre partidários da responsabilidade e da irresponsabilidade, não são necessários mais diagnósticos. A educação pública é, em Portugal e em termos gerais, uma fraude (uma espécie menor de irrealidade).

Quinta-feira, 25 de Dezembro de 2008

0018 - Irrealidade 9: mensagem de Natal

“A dignidade do homo sapiens é precisamente essa: a percepção da sabedoria, a demanda do conhecimento desinteressado, a criação de beleza. Fazer dinheiro e inundar as nossas vidas de bens materiais cada vez mais trivializados é uma paixão perfeitamente vulgar e inane. Pode ser que, de modos agora muito difíceis de discernir, a Europa venha a gerar uma revolução contra-industrial, assim como gerou a própria revolução industrial. Certos ideais de lazer, privacidade, de individualismo anárquico, ideais quase apagados pelo consumo conspícuo e pelas uniformidades dos modelos americano e americano-asiático, poderão ter a sua função natural num contexto europeu, mesmo que esse contexto implique uma certa medida de apetrechamento material. (...) Não é a censura política que mata: é o despotismo do mercado de massas e as recompensas do estrelato comercializado.”

(...)

Se os jovens ingleses escolhem classificar David Beckham acima de Shakespeare e Darwin na lista de tesouros nacionais, se as instituições culturais, as livrarias e as salas de concertos e teatro lutam pela sobrevivência numa Europa que é fundamentalmente próspera e onde a riqueza nunca falou tão alto, a culpa é fundamentalmente nossa. Assim como o poderia ser a reorientação do ensino secundário e dos meios de comunicação social, por forma a corrigir esse erro.

(...)

poderíamos regressar à convicção de que “a vida não reflectida” não é efectivamente digna de ser vivida.”

(George Steiner, A Ideia de Europa)

Terça-feira, 23 de Dezembro de 2008

0017 - Irrealidade 8

Calum Macleod nunca terá lido Bernardo Soares.

Viveu na ilha de Raasay, no arquipélago das Hébridas (Escócia). Vivendo isolado num lugarejo sem acessos e verificando que as entidades oficiais nada faziam para os ligar à povoação que ficava a três kms, nos anos 60 Calum resolveu pegar numa pá, numa picareta e num carrinho de mão e começou ele a abrir uma estrada, pedra por pedra. Sozinho, quotidianamente, demorou 10 anos a abrir os três kms de estrada. Com ela, ambicionava que as gentes que saíram (vivia só com a mulher) pudessem regressar à parte norte da ilha. A sua história foi agora publicada em livro.

Não é uma estrada que comece no meio de um campo e termine no meio de outro, sendo apenas “meio de estrada”. Leva, de facto, de um lugar a outro. Mas Calum deu a vida para a fazer e o épico contido no seu acto não é menos sublime. Ao que parece as pessoas não estão a regressar ao Norte de Raasay por causa da estrada. Mas talvez em breve comecem a lá ir pelo significado e beleza da irrealidade prodigiosa que foi o acto de a construir.

Domingo, 21 de Dezembro de 2008

0016 - Irrealidade 7

Tenho uma simpática colega que, quando soube que eu tinha novo blog, me perguntou se continuava a citar Bernardo Soares e o seu Desassossego, caso contrário...

Pois aqui vai:

"Por que é bela a arte? Porque é inútil. Por que é feia a vida? Porque é toda fins e propósitos e intenções. Todos os seus caminhos são para ir de um ponto para outro.
(...)
Quem desse a vida a construir uma estrada começada no meio de um campo e indo ter ao meio de um outro, que, prolongada, seria útil, mas que ficou, sublimemente, só o meio de uma estrada.
A beleza das ruínas? O não servirem para nada.
A doçura do passado? O recordá-lo, porque recordá-lo é torná-lo presente, e ele nem o é, nem o pode ser (...)"
(Bernardo Soares, O Livro do Desassossego)

Para quando alguém perguntar para que serve a Arqueologia. Porque ao servir para nada serve para tudo, coisa para a qual tantas outras utilidades não conseguem servir.

Sábado, 20 de Dezembro de 2008

0015 - Irrealidade 6: das máscaras.

A Arqueologia, como todas as ciências, é produtora de mitologias, de irrealidades. Mas, também como as restantes, é simultaneamente produtora de realidades. Explico: a irrealidade de uma tese qualquer é-o em relação ao que pretende representar, àquilo de que se propõe dar conta; mas, em si, é realidade, é uma ideia que está lá e que interfere no curso dos acontecimentos – em suma, existe. Os mitos são, simultaneamente, irreais e reais.

Esta dualidade da irrealidade é o que lhe confere o seu carácter prodigioso e que esteve na base do idealismo: as coisas são resultado da nossa idealização delas. Porque a ideia é o que existe e a representação que pretende fazer da coisa é irreal (porque a coisa representada é sempre outra coisa, como a física já demonstrou).

Esta concepção tem vindo a ser, paulatinamente, cultivada por alguns, poucos, arqueólogos portugueses e, necessariamente, tem desembocado na ideia de que as representações do passado são simplesmente irrealidades presentes e que todo o discurso da Arqueologia é sobre o presente e não sobre o passado. E quem pensar o contrário é ingénuo.

Pois toda a gente que me leu sabe que sou ingénuo.

A minha ingenuidade leva-me a argumentar que o discurso das ciências históricas (as que tratam das questões do Homem no passado) também fala do passado, ou melhor, que nesse discurso o passado também está em parte presente.

A minha tese, que bebi em Armando Castro, é a de que o conhecimento, seja do que for, é relacional. Isso significa que ele é o resultado da relação entre o objecto de conhecimento e quem conhece. Argumentarão que o passado, enquanto objecto, não está cá. Passou. Errado. Porque o presente transborda passado por todos os lados. E é isso que permite relacionarmo-nos com o que passou, mas não passou totalmente.

Quero com isto dizer que das irrealidades - ou dos mitos, se quiserem - fazem parte parcelas de realidade. Atenção, pois, às máscaras, pois elas contêm sempre algo do que está por trás. Nunca são totalmente opacas (irreais).

Sexta-feira, 19 de Dezembro de 2008

0014 - Irrealidade 5

Na Ler de Maio, um pequeno artigo de João Pinheiro fez-me sorrir. Aparentemente, um escritor inglês frustrado chegou num ápice ao top mudando de nome e transformando-se num escritor porno. Os títulos publicados não podiam ser mais sugestivos: The Back Passage; Hot Valley e Secret Tunnel são um assombro de imaginação. A pornografia tem que ser explícita, seja qual for o suporte.

Mas o que verdadeiramente me surpreende é, nos dias que correm, a sua aparente vitalidade em livro. Há quem prefira, mesmo no explícito, reservar lugar à imaginação.

E por falar em imaginação (ou irrealidade prodigiosa), verifico, assim de repente, que a sexualidade está ausente dos discursos sobre a Pré-História, talvez com excepção daquele já antigo livrinho chamado La stratégie du Sexe – leitura obrigatória para as questões da hominização há uns largos anitos atrás. Será mesmo impossível de falar, de forma credível, sobre o assunto relativamente à Pré-História?

Quarta-feira, 17 de Dezembro de 2008

0013 - Imprevisto 01

Há dias um colega pediu-me opinião sobre que livro de Lévi-Strauss deveria pedir ao Pai Natal. Aconselhei aquela que é considerada a sua obra principal, Tristes Trópicos.

Nesse mesmo dia, ao fim da tarde, fui ao Carmo assistir a uma conferência sobre grutas artificiais pré-históricas. Como quase sempre acontece quando ali me desloco, passo pelas livrarias locais. É compulsivo.

Nesse fim de tarde os olhos vagueavam pelas prateleiras e acabaram por pousar precisamente sobre os Tristes Trópicos. Nunca li o livro na íntegra, mas apenas partes fotocopiadas durante a frequência da universidade. E, movido pela coincidência, resolvi comprá-lo para o ler (e reler) integralmente.

Mas continuei a deambular pela livraria e lá acabei no sector da Filosofia (à falta de um de Arqueologia – teimo na irrealidade, como já devem ter percebido). Interessei-me e comprei mais um livrinho de George Steiner, intitulado “Nostalgia do Absoluto”, o qual folheei apressadamente (o tempo da exótica conferência sobre grutas aproximava-se). O meu interesse havia sido atraído pelo último capítulo, dedicado ao futuro do conceito de “verdade”. Ontem, começando a lê-lo, qual não é a surpresa de ver um capítulo dedicado a Tristes Trópicos e a Lévi-Strauss.

A tese de Steiner, que dá o nome ao livro, é a de que a erosão do Cristianismo na Europa deixou um vazio de absoluto, de uma visão global de entendimento do Universo e do Humano. Vazio esse que se tem procurado preencher com outras “mitologias”, as quais, opondo-se à religião, apresentando-se como “laicas” e “científicas”, não deixam de ter uma estrutura mitológica e de se encontrarem imbuídas de uma cosmologia judaico-cristã (na tese de Steiner, claro, não dos que professam essas mitologias).

Steiner apresenta três grandes mitologias (visões integrais para a história e destino do Homem), nas quais reconhece os vários critérios de ser mitológico: a pretensão para a totalidade; o carácter profético; a existência de textos canónicos; o desenvolvimento de uma linguagem própria; o combate à heresia desenvolvida a partir do interior do sistema.

E nos três exemplos reconhece a mesma ideia de base judaico-cristã: uma origem, em que o Homem “cai”, perde um equilíbrio inicial (perda do Éden, na versão original); um percurso histórico de luta e sofrimento para o recuperar; um epílogo, em que o mesmo se alcança ou não.
As mitologias são o marxismo, a psicologia freudiana e, precisamente, o estruturalismo antropológico explanado por Lévi-Strauss em Tristes Trópicos (o texto sagrado desta mitologia). Nas duas primeiras o final é feliz, o Homem reequilibra-se: no marxismo atinge o Éden no final do seu percurso histórico; com Freud e com a psicanálise redescobre-o na origem. Com Lévi-Strauss o final é triste e o Homem entra em entropia.

Vou, pois, começar a ler (e reler) Tristes Trópicos, num momento em que não sonhava fazê-lo e com uma perspectiva há pouco tempo insuspeita. A História de cada um é feita destes pequenos (por vezes grandes) encontros e desencontros, sempre prontos a atrapalhar o Grande (ou pequeno) Plano e o empenho dos seus gestores.

A outra escala, traduz o permanente conflito entre a busca de controlo de uma coisa que não se deixa controlar na totalidade e que, de forma quase perversa, tão depressa se oferece dócil como de repente se rebela e revela indomesticável por qualquer “mitologia” ou tecnicidade.

Terça-feira, 16 de Dezembro de 2008

0012 - Mitologia europeia

George Steiner transformou-se num dos filósofos europeístas favoritos do regime (de Bruxelas). O prefácio de José Manuel Durão Barroso à edição portuguesa de “A Ideia de Europa” é disso um sintoma. Ficamos sempre na dúvida quando vemos o poder político entusiasmado com um filósofo, um cientista, um escritor, um artista, um futebolista ou uma fadista, mas isso pode ser extraordinariamente injusto para os visados (tanto para políticos como para os outros), como me parece ser este o caso. Embora saibamos que a União Europeia, à boa maneira do século XIX / primeira metade do século XX, já promoveu iniciativas “simpáticas” para com a ideia europeia no campo da Proto-História e da Arqueologia, tal não quer dizer que a ideia não seja uma realidade e que pessoas não possam a ela aderir de forma convicta e a professem de forma genuína.

Passando por cima do preconceito que o prefácio poderia gerar, entra-se numa interessante e extraordinariamente erudita noção da “identidade” europeia. Nesse texto, Steiner estabelece essa identidade a partir de seis ideias que toma como axiomáticas. Destacaria, pelo humor realista, a primeira e pelo propósito deste post a terceira.

A primeira afirma que “A Europa é feita de cafetarias”. Isto é, o percurso do pensamento que foi construindo nos últimos séculos a ideia de Europa é indissociável de um espaço público específico: o café. Os exemplos que apresenta são múltiplos e é interessante como os confronta com os pubs britânicos e os bares americanos: que seria da literatura irlandesa sem o pub ou do jazz americano sem o bar (ou clube)? E que seria do pensamento europeu sem o café? Esta vinculação de um pensamento, de uma ideologia, de uma tendência cultural a um espaço específico é interessante. Faz-nos pensar sobre o significado do desaparecimento sistemático desses espaços, substituídos por outros mais alienados e irracionais (no sentido de que é difícil de neles desenvolver qualquer tipo de pensamento ou troca de ideias).

A segunda afirma as urbes europeias como espaços de memória secular, expressa na sua toponímia: por contraste com os nomes das ruas americanas (pontos cardeais ou simples números), a toponímia europeia é um tratado de história, memória, política, que nos enraíza nas nossas seculares vivências regionais, mas também europeias.

E foi esta observação que me recordou uma proposta feita a propósito do aproveitamento patrimonial que poderia ser feito no futuro hotel de charme da Casa do Governador da Torre de Belém. Entre muitas outras hipóteses avançadas pela equipa do projecto, estava esta: porque não substituir os números dos quartos por nomes dos governadores e disponibilizar em cada quarto informação sobre aspectos significativos da vida e do contexto histórico do governador patrono de cada quarto?

A impessoalidade do número substituída por um nome e uma história. A transformação de um espaço indiferenciado num lugar, com sentidos e memória. É essa a tradição europeia; é essa a força das ciências históricas neste continente. O futuro da Europa, como sublinha Steiner, dificilmente poderá ser arquitectado fora de um espelho retrovisor: olhando em frente, com a capacidade de entender, integrar e valorizar o que vem de trás.

Filosofia e ciências históricas são constituintes da ideia de Europa e do seu futuro e não simplesmente a tecnologia e a inovação. Mas tal como os cafés, estas disciplinas estão aos poucos “a fechar” por terras lusitanas.

Segunda-feira, 15 de Dezembro de 2008

0011 - De certa forma...

... em complemento ao post anterior:

http://dafinitudedotempo.blogspot.com/2008/12/vale-do-ca-no-pblico-tempo-de-balano.html

0010 - Arqueologia Portuguesa

Em 1943, um livro intitulado “O problema da Filosofia Portuguesa, de Álvaro Ribeiro, marcou o início de uma polémica sobre a existência de uma filosofia nacional.

Eduardo Lourenço e Manuel Antunes estão entre os que repudiaram a ideia. O primeiro questionou se seria possível uma filosofia nacional se os seus temas são universais, o segundo afirmou que “ se é nacional não é filosofia; se é filosofia não é nacional.”

A questão que de imediato se me colocou é se poderíamos ter um debate destes centrado na Arqueologia, ou melhor, se poderíamos colocar uma questão destas, pois debater estes temas é coisa que os arqueólogos cá do burgo não apreciam muito (afirmação que parece já querer começar a responder à questão).

Antes de mais, convém dizer que o problema não se coloca no mesmo patamar para a Filosofia e para a Arqueologia (ou qualquer outra ciência), porque a filosofia não está no patamar científico; está, como diria Gasset, acima, não tendo que se sujeitar aos limites impostos pela exactidão e por uma qualquer porção de realidade: “... a ciência experimental é apenas uma exígua porção da mente e do organismo humanos. Onde ela se detém não se detém o homem.” e “(...) para que um conjunto de pensamentos seja filosofia, baseia-se em que a criação do intelecto perante o Universo seja também universal, integral – que seja, em suma, um sistema absoluto” (Ortega y Gasset).

Por outras palavras, as ciências lidam com questões particulares do Universo, a Filosofia assume-o, na integralidade que o constitui, como o seu objecto de análise. Torna-se, pois, evidente qual o partido que Gasset tomaria no debate acima referido.

Mas se parece congruente que, ao nível do objecto, a Filosofia não possa ser nacionalizada, pergunto-me se ao nível da sua prática, com consequências no resultado, essa questão não fará sentido? Responder não, creio, obrigaria a pressupor a existência de uma pan-disciplina desvinculada das suas condições sociais de produção, que todos sabemos bem regionalizadas e nacionalizadas. E nisto, talvez a Filosofia não seja tão diferente da Arqueologia.

Poderemos, pois falar de uma Arqueologia Portuguesa? Dificilmente seria sustentável que a organização do edifício (ou bairro) da produção de conhecimento não lhe conferisse um cunho particular. Antes de mais, e apesar dos problemas com que lida serem de maior escala, trata-se de um conhecimento que lida com realidades fortemente vinculadas a territórios específicos. Enquanto problema, tratar o megalitismo em Portugal ou na Irlanda não é a mesma coisa que tratar a aceleração de partículas em Portugal ou na Irlanda. Mas mesmo que fosse, rapidamente deixaria de o ser, pelas particularidades sociais que envolvem a produção do conhecimento arqueológico: a forma como se organiza administrativamente a produção desse conhecimento (entenda-se os tipos de instituições que fazem Arqueologia, a sua organização específica, os condomínios administrativos da disciplina – os seus vizinhos disciplinares -, etc.), a legislação existente, a forma como se estrutura a tutela e a profissão, a sua demografia, o volume e orientação do investimento público e privado, a tradição e o enraizamento disciplinar, a receptividade que a disciplina tem no seu contexto social nacional, a sua tradição académica.
Tudo isto, e mais algumas coisas, acaba por conformar o conhecimento produzido pela Arqueologia em Portugal, dotando-a de uma personalidade própria, conferindo-lhe um cunho que a distingue relativamente a outras Arqueologias, mesmo quando apenas procura copiar o que se faz lá fora.

Poderemos, pois, pensar numa identidade para a Arqueologia portuguesa? Penso que sim. Mas não uma identidade essencialista, entenda-se. Uma identidade constituída de diversidade, geradora de pulsões conflituantes, relacional e em permanente reconstrução. Dinâmica e contingente como qualquer outra identidade.

Quanto ao que, concretamente, particulariza a Arqueologia Portuguesa, isso fica para outra(s) ocasião(ões), que o post já vai longo.

Domingo, 14 de Dezembro de 2008

0009 - Pensamentos numa livraria

Tenho como um dos prazeres da vida o circular por livrarias. Como os meus interesses são variados, nunca sou desiludido, porque há sempre qualquer coisa interessante. Contudo é também quase sempre frustrante nada – ou quase nada – encontrar sobre Arqueologia.
É notável a ausência de bibliografia arqueológica nas livrarias em Portugal e muito concretamente em Lisboa. Para além da Livraria Portugal, onde ainda conseguimos encontrar uma prateleira inteira com livros e revistas de Arqueologia, o resto é um deserto.

É certo que, em Arqueologia, se publica pouco em Portugal. É ainda mais certo que se lê pouca Arqueologia, tanto pelos profissionais do ramo, cujo deficit de leitura é manifesto, quer pelo público em geral. Nesta última situação, talvez porque o que se publica é demasiado técnico e pouco destinado a uma divulgação generalista.

Parece, pois, não haver mercado editorial para a Arqueologia. E, no entanto, à partida todos diríamos que a disciplina teria potencial.

Acontece que, no que respeita ao mercado interno, se instalou uma prática e uma rotina em que os agentes pensam que os conhecimentos incorporados durante o trajecto académico são suficientes para com tudo lidar e tudo escavar, etc., etc., etc.. Por outro lado – e é preciso reconhecê-lo e afirmá-lo – a actual situação financeira que envolve a actividade arqueológica não cria condições favoráveis a práticas rotineiras de aquisição de bibliografia. Isto, contudo, não justifica na íntegra a “descontracção” com que , em iliteracia científica disciplinar, muitos se dedicam à profissão.

Quanto ao público generalista, diria que a Arqueologia portuguesa ainda não começou a produzir um discurso didáctico, generalista e gerador de curiosidade e prazer de leitura, como tem acontecidos com autores nacionais da área das ciências físicas e naturais. Existem algumas situações, mas são raras e não parecem ter conseguido atingir as fórmulas mais eficazes.

Estamos, pois, numa situação viciosa em que a ausência de mercado não estimula respostas disciplinares adequadas, ao mesmo tampo que uma falta de vocação da grande maioria dos arqueólogos para lidar com o público generalista também não contribui para a emergência desse mesmo interesse externo, com claros reflexos negativos no Retorno Social que a disciplina deve proporcionar e na consolidação da sua relevância social.

Também é certo que não devemos descurar o facto de que o mercado editorial está infestado por grande quantidade de produtos tóxicos que, devido à sua grande procura por parte do “Homem Massa”, acaba por roubar espaço nas prateleiras a outras iniciativas editoriais, remetendo-as para nichos de diversidade ecológica, eles próprios com dificuldades de sobrevivência.

Deveremos, pois, entender a reduzida presença da Arqueologia nas livrarias como um espelho da importância concedida à Arqueologia pela sociedade portuguesa e, simultaneamente, da consideração que os arqueólogos revelam por essa mesma sociedade? Ou será tudo isto resultado de uma lógica de negócio, que não permite o aparecimento e ascensão de projectos editoriais que não vendam à partida milhares de exemplares? Se assim for, os pequenos livreiros prestam um serviço público inestimável e mereceriam a atenção das entidades que governam o país na área cultural. Infelizmente as mesmas que acabaram com as publicações científicas de arqueologia que detinham e encaixotam (sabe-se lá por quanto tempo) uma das mais importantes bibliotecas de arqueologia do país.

Naturalmente, esta debilidade da dinâmica editorial não pode deixar de ter profundas consequências atrofiantes e nefastas no desenvolvimento disciplinar e profissional da Arqueologia portuguesa. Mas também não é muito espectável que quem não costuma ler nem escrever (para além de curtos relatórios) se preocupe muito com o problema, que, em última instância, nem sequer existe. É pura irrealidade.

Sábado, 13 de Dezembro de 2008

0008 - Ensino Público

Quando se discute a questão da divulgação do conhecimento e pensamento, costuma dizer-se que as ciências físicas e naturais há muito perceberam a necessidade e tomaram a dianteira. Os sucessos de Sagan, Reeves, Attenborough, Jay Gould, etc. estão aí para o provar.

Curiosamente, à frente de muitas ciências sociais e históricas, a Filosofia tem conhecido ultimamente um profuso movimento editorial de divulgação, com livros que procuraram apresentar questões filosóficas de modo atractivo ao público generalista e, sobretudo, procuram alimentar a ideia de que a filosofia é útil e mesmo fundamental para a prática quotidiana. Entre os seus divulgadores tem-se destacado o espanhol Fernando Savater.

Num dos seus livrinhos traduzidos para português, “A Coragem de Escolher”, num capítulo intitulado “Escolher a Educação Cívica”, Savater afirma que, para que “as melhores conquistas civilizadas não sejam simples promessas ou património exclusivo de algumas elites”, se deveria escolher começar pela educação cívica. E afirma:

“ Recordo ter lido num dos últimos livros de John Kenneth Galbraith algo parecido com o seguinte: “Todas as democracias contemporâneas vivem sob o temor permanente à influência dos ignorantes”. É a esse temor e à forma de o prevenir que se refere a educação cívica.”

E acrescenta que essa ignorância se refere à:

“... incapacidade de expressar exigências sociais inteligíveis à comunidade ou para compreender as formuladas por outros, o bloqueio que impede de argumentar ou calibrar os argumentos alheios, a carência de um mínimo de sentido dos direitos e deveres que pressupõe – e impõe – a vida em sociedade para lá das adesões patológicas à tribo ou à etnia. Este tipo de ignorantes, todos eles com direito a voto, opor-se-ão provavelmente às reformas necessárias que impliquem algum sacrifício e secundarão os demagogos que lhes prometem paraísos gratuitos ou a vingança brutal das suas frustrações à custa de qualquer bode expiatório. O autêntico problema da democracia ... [consiste]... no predomínio geral da maré da ignorância.”

Ao ler isto percebe-se porque razão a Filosofia, apesar dos esforços, não desperta a adesão e entusiasmo das massas: não gostam da imagem no espelho. E lamenta-se o suicídio que a nossa democracia tem paulatinamente cometido, destruindo a sua espinal-medula: o seu sistema de ensino público.

Sexta-feira, 12 de Dezembro de 2008

0007 - Pragmatismo vs Contemplação

Como se expressa a referida (no post anterior) dupla personalidade da Ciência no caso concreto da disciplina arqueológica? Como se articula uma Arqueologia orientada à acção, com outra orientada à contemplação e à fruição?

Não poucas vezes me tenho pronunciado, oralmente e por escrito, sobre a necessidade de a actividade arqueológica proporcionar um Retorno Social. Como justificação tenho apresentado a necessidade de corresponder a um financiamento por parte da sociedade, a uma responsabilidade perante a vertente patrimonial (com tudo o que isso representa) do objecto de estudo da Arqueologia, e à própria sustentabilidade do processo de investigação arqueológica e da profissionalização associada, assumindo que só o que é socialmente útil e valorizado será socialmente sustentável.

Diria que um dos recentes exemplos máximos do pragmatismo aplicado à Arqueologia foi a recente conferência de Criado Boado no primeiro Congresso Português de Arqueologia Empresarial, o que só abona em favor da organização do dito. Ali foram sublinhados os compromissos sociais da Arqueologia e a necessidade de esta ser perspectivada como factor de inovação social, isto é, como meio de mudança social. Instrumental, portanto (daí a simpatia desta “escola” de Compostela para com Rorty).

Esta perspectiva, que mantenho válida e necessária, poderá parecer, numa primeira e descuidada análise, uma adesão sem concessões a uma perspectiva instrumental do conhecimento. Não é, nem deve ser.

Mas primeiro há que distinguir dois níveis de pragmatismo, um essencialmente social e outro essencialmente político, embora ambos ideológicos.
Uma coisa são projectos de Arqueologia que visam promover o desenvolvimento sócio-económico a partir da valorização de contextos e discursos arqueológicos. Outra é a utilização desses mesmos contextos para produzir discursos de combate político-ideológico presente, como tem acontecido com colegas espanhóis e portugueses, que, com intransigente ortodoxia, têm tentado introduzir a luta de classes e a noção de exploração das mulheres na Pré-História Recente peninsular. A primeira é socialmente útil; a segunda é social e cientificamente questionável.

Mas, como dizia, o pragmatismo científico, se necessário e produtivo, não deve ser entendido como a única justificação da produção de conhecimento científico e de tudo o que este envolve. Outras razões entram na justificação, como a estética e emocional: a beleza das ideias e o prazer, a felicidade e a identidade que nos proporciona o conhecer. Em última instância estas também poderão ser funções, “ serviços” prestados por um conhecimento, mas não são ainda assim socialmente reconhecidas. E no entanto, é aí que reside o grande potencial das chamadas indústrias culturais.

Como refere Gasset, a necessidade de ideias (conhecimento) é acompanhada do prazer que proporcionam e esse, digo eu, é um prazer ontológico, isto é, constituinte do que somos, logo estruturante. Nisto aproxima-se da ideia de conhecimento contemplativo, sem função prática imediata, mas de consequências fundamentais na nossa formação intelectual e humana, na relação que estabelecemos com o mundo.

Face a isto, e para concluir, diria que muita da Arqueologia que hoje se pratica, sob os sovietes de uma metodocracia aproblemática e acumuladora de inutilidades ou por conclaves reunidos em torres de marfim, não consegue responder nem aos desígnios pragmatistas, nem aos desígnios “contemplativos”. É, em grande medida, socialmente inútil, ou seja, assassina do potencial disciplinar.

Quinta-feira, 11 de Dezembro de 2008

0006 - Irrealidade 4

A acção foi sempre movida por idealizações, por desígnios. Um desígnio é um objectivo que se pretende atingir, um resultado que se pretende alcançar. Porém, entre a ideação do pretendido e o seu alcance há tempo e trajecto e o alcançado depende tanto da vontade original como das incertas vicissitudes do percurso.

Para lidar com esta incerteza inventou o Homem uma forma específica de conhecer, quando verificou que a confiança que depositava no divino não era real garantia. A essa forma específica de conhecer chamou Ciência. A sua missão era conhecer para poder prever e, antecipando, poder gerir a acção através da qual se atingiriam os objectivos ideados. A Ciência está, na sua génese, imbuída de forte pragmatismo.

Contudo, também desde a origem, o pragmatismo da ciência foi sempre acompanhado por uma curiosidade não dirigida à acção, por uma satisfação proporcionada por um conhecimento mais contemplativo e menos instrumental. Mas a modernidade encarregou-se de acentuar a vertente pragmática da Ciência.

Os processos para atingir os objectivos dos homens passaram a ser conformados por projectos, os quais são antecipações do percurso. A forma de percorrer esse trajecto foi também ela dominada pela ciência, que para isso desenvolveu sistemas domesticadores que chamou Gestão. Esta basicamente, com auxílio informático, leva-nos pelo caminho antecipado, produzindo “estímulos correctores” sempre que há desvios.

Resumindo, num projecto não pode haver hipótese de chegar à América quando se pretende ir para a Índia. Num projecto, o imprevisto, designado por risco, deve ser dominado.
Contudo, num momento de profunda irrealidade, diria que seria dramático para a humanidade a eliminação do imprevisto, pois deixar-nos-ia estritamente dependentes da nossa limitada capacidade de imaginação. E, bem vistas as coisas, aquilo que foi inicialmente um desastre para o projecto colombiano, rapidamente se transformou num inimaginável êxito.

Tempo houve em que o Homem pensou que conseguiria com a sua ciência pôr-se no lugar de um Deus qualquer. Ambição idiota. A vida divina, que tudo controla, é destituída de imprevisto, mas por isso mesmo limitada.

A vida humana é ilimitada porque aberta ao imprevisto (apesar dos Sapiens esforços em contrário), necessitando apenas de aprender a lidar com ele e dele tirar proveito.
Por isso a Arqueologia, tão cheia de imprevisibilidades, é tão deliciosamente problemática.

Quarta-feira, 10 de Dezembro de 2008

0005 - Irrealidade 3

Eduardo Lourenço, como é sabido, destaca-se pelas suas análises da situação cultural, política, sociológica, literária de Portugal. O seu percurso intelectual levou-o a construir um modelo de pensamento que é também um modelo de comportamento: o pensamento heterodoxo.
Simplificando, poderemos dizer que o pensamento (e o comportamento) heterodoxo se define por uma permanente procura da diversidade sempre que a ortodoxia se instala. Heterodoxia é, assim, um pensamento (e um comportamento) que ambiciona a liberdade.
Não devemos, contudo, confundir ortodoxia ou heterodoxia com outro tipo de formulações histórico-psicológico-sociológicas, do tipo “tradição”, “vanguarda”, “modernidade”, etc. Todas elas podem caracterizar-se por serem ortodoxas ou heterodoxas.
Também não o devemos fazer relativamente à inovação. Esta, frequentemente resultado de um ambiente heterodoxo, não poucas vezes surge acompanhada de uma presunção exclusivista, que olha para o que existe não como outras existências, mas como passado.
Ora se na inovação tecnológica essa presunção poderá ter algum sentido (mas nem sempre, e para tal basta recordar a revalorização dos modos tradicionais de fazer), na inovação sociológica e organizacional nem tanto. O modelo que exclui, que não é aberto e relacional, é um modelo que tende para a ortodoxia e não é por ser novo que disso escapa.
Mas também não se confunda ortodoxia com resistência e heterodoxia com simples abertura. Porque os fundamentos de ambas não estão aí, mas nas razões de uma abertura ou de uma resistência, ou seja, no livre pensamento crítico ou na falta dele. A tecnocracia será sempre um pensamento ortodoxo, por mais inovações que vá integrando, porque coloca as maneiras de fazer acima das razões do fazer.
A ortodoxia é a tendência simplificadora de uma qualquer realidade heterodoxa complexa.
A rotina é ortodoxa e edificadora de uma prodigiosa irrealidade.

Segunda-feira, 8 de Dezembro de 2008

0004 - Irrealidade 2

Os mais perspicazes já terão percebido que fui buscar o título deste blog a Eduardo Lourenço e que esse facto poderá representar uma adesão à crítica que deu origem à expressão. Um dos autores que, segundo Eduardo Lourenço, fugia precisamente a essa prodigiosa irrealidade portuguesa era Pessoa.

E foi o mesmo Pessoa que logo no início de um texto curtinho intitulado “O caso mental português” sintetizou:

“Se fosse preciso usar de uma só palavra para com ela definir o estado presente da mentalidade portuguesa, a palavra seria “provincianismo”.

Provincianismo traduzia a capacidade de perceber a novidade e a mudança, mas ter com elas uma relação superficial, de imitação e de acrítica idolatria. O provinciano, na taxonomia pessoana, estava entre o Campónio (que desconhece ou rejeita a novidade) e o Citadino, para o qual a novidade fazia parte da convivência diária e era objecto de pensamento. Estes estádios eram mentais, pelo que não deviam ser vinculados a quaisquer geografias.

De facto, para Pessoa, a maioria das gentes do mundo vivia no estádio provinciano. O problema de Portugal seria que a sua elite, supostamente citadina, era também provinciana.

Talvez a principal “inovação social” do último quartel do século XX português, sustentada pela democrática destruição do ensino, tenha sido a ascensão dos campónios, engrossando o número de provincianos. Hoje somos quase todos provincianos. Ao contrário da estrutura social, onde a classe média vai sucumbindo, a “classe média mental” triunfa e a sua vidinha irreal também.

Provincianos e irrealistas.

Sexta-feira, 5 de Dezembro de 2008

0003 - Irrealidade 1

Ando a reler um dos famosos livrinhos de Ortega y Gasset, intitulado “O que é a Filosofia?”. Curiosamente, só ontem constatei esta circunstância, quando alguém, um colega, o vislumbrou na minha secretária e me perguntou porque razão andava eu a ler um livro sobre filosofia. Até então, sempre que olhava a capa lia “O que é a Arqueologia?” e do interior nada vinha que me alertasse para a ilusão. Curiosa irrealidade a minha.

Quinta-feira, 4 de Dezembro de 2008

0002 - Escrever

Estou aqui a escrever e tu, leitor, estás aí a ler-me.
Entre o tempo da minha escrita e o tempo da tua leitura há tempo.
Mas é como se esse tempo não existisse
E a minha escrita e a tua leitura fossem actos simultâneos.

Não que o tempo medeador não interfira.
Pois conforma a tua leitura.
Mas não interfere no leres-me.

Partilhas este momento, este preciso momento, comigo.
És a minha póstuma parceria.

Escrever é contruir pontes, escrever é engenharia.

Ninguém pode escrever em solidão.
Porque escrever é potencialmente não estar só.

E a solidão é implacável
E não permite sequer a potencialidade de companhia.

Segunda-feira, 1 de Dezembro de 2008

0001 - Boa tarde

O início de um blog é sempre um momento de algum entusiasmo, de alguma convicção. Este é o meu terceiro. Corresponde, naturalmente, a mais um estado de alma, que por sua vez, traduz mais um estádio na vida.
Este será bem mais pessoal do que os anteriores. Não no sentido de falar de mim, mas de falar essencialmente do que, em cada momento, mais me interessa e preocupa. Menos programático, portanto. Mais ao sabor da minha prodigiosa irrealidade.