Quinta-feira, 21 de Maio de 2009

0066 - Ler


Costuma dizer-se que em Portugal se lê pouco. Mas “pouco” ou “muito” são considerações de natureza eminentemente relativa. Assim, poderemos considerar que se lê pouco em termos da quantidade de pessoas que habitualmente lê e do número de horas que dedica à leitura. Mas também poderemos considerar que se lê, hoje, muito mais do que se lia há umas décadas atrás (mais gente instruída, mais livros e mais baratos, etc.). Finalmente, poderemos considerar que se lê mais quantidade e menos qualidade (“literatura” light, “literatura tóxica”, “literatura cor de rosa”, etc.). O fenómeno da leitura em geral parece-me de complexa avaliação na actualidade, pois apresenta seguramente muitas variáveis que têm que ser consideradas.

Já no que respeita à leitura técnico-científica profissional o caso parece mudar de figura, já que a ausência ou a prática de leitura se tornam transparentes no trabalho produzido no plano dos processos, no plano do realizado e no plano do ideado.

Na minha área disciplinar, que até se inscreve no âmbito das ciências sociais (pois trata de pessoas e não de coisas, embora aborde as primeiras a partir das segundas), a tendência para a não leitura (tendência partilhada por outras áreas disciplinares segundo ouço dizer) é cada vez mais acentuada. Durante a formação lê-se pouco; depois lê-se ainda menos.

Ora a leitura, não sendo o único, é, no que respeita à profissão e à ciência, um dos principais meios de alargamento de horizontes, de aquisição de conhecimentos, de desenvolvimento intelectual. E no entanto, muita gente “consegue” estar a fazer um trabalho sem sentir a necessidade, o sobressalto, o dever, o interesse de procurar ler sobre o assunto que tem em mãos. As consequências, para o “pobre” do trabalho, para a disciplina e para os destinatários finais desse mesmo trabalho, são de tal forma óbvias, que me dispenso de as enunciar aqui.

O que sublinho, sim, é a tranquilidade com que, em ignorância, se trabalha sem que se vislumbre, em muitos (felizmente não em todos), essa necessidade e esse interesse. Talvez a Universidade devesse reflectir sobre se esta não é matéria sua: educar para a responsabilização profissional, gerando nos seus licenciados um sentimento de incómodo e/ou de curiosidade quando sentem que não sabem, que desconhecem, mas têm que fazer. Um sentimento que, em face das circunstâncias com que são confrontados, os vá motivar, os vá compelir a ler. Seja porque não controlam a sua curiosidade e desejo de saber, seja porque têm um responsável receio de fazer disparate.

Os menos responsáveis serão os empregadores, embora não se possam excluir na íntegra à responsabilização, pois são parte activa no contexto de degradação das condições profissionais que, de várias maneiras, incentivam à não leitura. Aliás, para muitos, essa circunstância até pode ser considerada uma mais valia. Como sublinhava Calvin, quanto mais se sabe mais difícil se torna tomar uma decisão; quando se fica informado começa-se a ver zonas cinzentas e complexas; começa a perceber-se que nada é simples e transparente; para concluir que o conhecimento é paralizante (para quê complicar?). Esta perspectiva, infelizmente, informa as atitudes e práticas de muitos “pragmáticos”.

Mas há outra maneira de olhar para o conhecimento: a que lhe acrescenta à aptidão de resolver as capacidades de potenciar e de criar; de “valor acrescentado”. Para quem assim entende, estimular a leitura deverá ser uma opção estratégica. Não se trata da tradicional formação, na qual, de tempos a tempos, os colaboradores são chamados (ou simplesmente convidados) a participar e no âmbito da qual se podem fornecer algumas referências bibliográficas. Penso em planos de leitura orientados, organizados por temas, áreas ou cronologias. Sérios, bem pensados, bem estruturados e exequíveis. Ou seja, uma forma (entre outras possíveis) de passar do diagnóstico ao tratamento do problema.

Naturalmente, seria mais fácil, mais económico, mais proveitoso e mais lógico, se o assunto fosse atacado mais a montante. Mas as “barragens” são, hoje, pouco populares no nosso sistema de ensino e há cada vez menos castores.

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