
Quinta-feira, 23 de Dezembro de 2010
Domingo, 19 de Dezembro de 2010
0315 - Depois de ver...
Se Tudo quanto Existe...
é lenta evolução,
longa transformação
sem Deus e sem mistério;
se tudo no Universo tem sentido
sem o sopro divino;
se o segredo da vida, a criação,
se explica pela ciência,
e a corrente vital
é também consequência;
se a humana consciência
é simples equação...
— que significa a vocação do eterno,
que quer dizer a aspiração do Céu
e o terror do inferno?
E se acaso é o instinto a lei da vida,
se a verdade
é só necessidade
inexorável, lenta, laboriosa,
que sábia explicação
tem esta frágil, esta inútil rosa?
Sábado, 18 de Dezembro de 2010
Terça-feira, 14 de Dezembro de 2010
0313 - Marfim

Hoje, na Associação dos Arqueólogos Portugueses (Museu do Carmo, Lisboa), pelas 18 horas, Thomas Schuhmacher (do Instituto Arqueológico Alemão de Madrid) irá apresentar uma conferência relativa à sua investigação sobre a utilização do marfim na Pré-História Recente ibérica, a convite do Núcleo de Investigação Arqueológica da ERA Arqueologia. Entre outros sítios abordados, estarão os Perdigões, cujos sepulcros 1 e 2 proporcionaram uma das maiores colecções de objectos em marfim desta época em território português. No calcolítico peninsular são hoje conhecidos objectos fabricados sobre marfins de elefante africano, marfim fóssil de Elephus antiquus, sobre marfim de cachalote e até sobre marfins de elefante asiático.
Para mim, contudo, mais interessante que os objectos é a questão relativa ao que significaria o marfim para aquelas gentes: conheceriam o animal? que lugar lhe reservavam no seu ideário? veriam na matéria-prima as propriedades e essências que eventualmente reconheceriam ao animal? Ou era simples matéria-prima valorizada por razões estéticas e pela sua raridade?
Questões que coloquei num texto sobre lúnulas em marfim dos Perdigões (http://www.nia-era.org/component/option,com_docman/task,doc_download/gid,78/Itemid,55/) e noutro que agora estou a redigir sobre as pequenas estatuetas de animais, também elas provenientes dos sepulcros 1 e 2 daquele sítio. A matéria-prima raramente é só isso e nas antigas sociedades pré-históricas ainda menos o seria. Têm propriedades, qualidades, essências, que as tornam activas no palco da vida social. Propriedades e qualidades que frequentemente são relacionadas com a origem (a montanha, a floresta, o rio, o animal, etc.) e com os significados que lhe são reservados por crenças e perspectivas do mundo.
Domingo, 12 de Dezembro de 2010
Sexta-feira, 10 de Dezembro de 2010
0311 - Na Terra dos Sonhos
Não sei se é perplexidade, se revolta, se incredulidade, se pura e simplesmente estou entretido na minha irrealidade. Confesso que tenho dificuldade em definir a situação em que me encontro.
A razão de tanta confusão e indecisão é uma. Mais outra. Ou seja, acho que são duas (perdoem a indecisão aritmética... é da confusão em que estou).
A primeira já tem alguns dias: a decisão dos Açores em se auto-designarem mais iguais que os outros iguais... como aqueles porcos daquela quinta famosa. É patética a situação. A de imoralidade social, por um lado, e o charivari e demagogia política que dela resultaram, por outro.
Imoralidade porque no continente há regiões com índices per capita inferiores aos açorianos. Pobres dos políticos locais de certas regiões raianas, que não têm o subterfúgio autonómico para fidelizar os seus votos. Imoralidade porque os deputados açorianos votaram favoravelmente o orçamento e os seus constrangimentos (e lembremos que os da Madeira, os maus do costume, votaram contra). Imoralidade porque os funcionários públicos que trabalham nos Açores não estão todos em pé de igualdade, embora partilhem igualmente os custos da insularidade. E ainda há aquela conversa da solidariedade nacional ...
Pouco me preocupa que esta cesariana decisão signifique, como a entrevista de Luís Amado há uns tempos, um reforço dos barões do PS e a progressiva feudalização do poder face à desestruturação da Versalhes socrática. Preocupa-me a aparente incapacidade de Portugal se unir voluntariamente, como uma equipa, para enfrentar a sua grave situação. Cada um por si. É um lema que tenho visto noutros cenários e que vejo agora a uma outra escala. E é verdade: a cesariana normalmente salvava a criança à custa da mãe.
Mas estava eu nestas cogitações quando fui apanhado de surpresa.
Surpresa não. É um verdadeiro golpe baixo realizado à minha sanidade mental. Trata-se da peregrina ideia de criar um fundo para sustentar despedimentos. Ou seja, o trabalhador desconta para o Estado, o qual guarda uma parcela dos descontos para sustentar despedimentos de trabalhadores. Simultaneamente, o mesmo Estado diz que temos que combater o desemprego e desenvolver medidas para a empregabilidade.
Estou confuso. Muito confuso. Começo a duvidar das minhas capacidades intelectuais. Pois seguramente tem que haver algo que me está a escapar nesta proposta. Desconfiado de mim mesmo, de não estar a ver bem as coisas, sinto grande dificuldade em classificar, em adjectivar, esta ideia. Tudo o que poderia dizer me parece curto, demasiado suave e urbano. À cabeça assomam adjectivações, digamos, pouco civilizadas.
E eu até me considero um moderado e genericamente liberal. Caramba, eu, que não suporto o Louçã, tive que aplaudir o homem. Eu, que não suporto o Bagão Félix, tive que lhe fazer “Hossanas”. Será que esta proposta é uma estratégia para promover a união que os terramotos açoreanos ameaçam arruinar?
Bom, bem vistas as coisas, não é assim uma inovação social tão, digamos, inovadora. Se já descontamos para uma reforma que provavelmente não viremos a ter, porque não descontar para um futuro subsídio de despedimento. Ao menos pode ser que esse se consiga receber.
Bom, agora a sério, tudo isto são irrealidades e coisas patetas que se propõem e discutem por aí. Naturalmente nada disto alguma vez poderia acontecer em Portugal (que ainda inclui os Açores). Certo?
Quarta-feira, 8 de Dezembro de 2010
Terça-feira, 7 de Dezembro de 2010
0309 - Sendo (4)
Minha vida tornou-se mais calma -
Isto é, menos vida."
(Álvaro de Campos - 1935)
0308 - Sendo (3)
Vida
Vida:
sensualíssima mulher de carnes maravilhosas
cujos passos são horas
cadenciadas
rítmicas
fatais.
A cada movimento do teu corpo
dispersam asas de desejos
que me roçam a pele
e encrespam os nervos na alucinação do «nunca mais».
Vou seguindo teus passos
lutando e sofrendo
cantando e chorando
e ficam abertos meus braços:
nunca te alcanço!
Meu suplício de Tântalo.
Envelheço...
E tu, Vida, cada vez mais viçosa
na oscilação nervosa
das tuas ancas fecundas e sempre virgens!
À punhalada dilacero a folhagem
e abro clareiras
na floresta milenária do meu caminho.
Humildemente se rasga e avilta
no roçar dos espinhos
minha carne dorida.
E quando julgo chegada a hora
meu abraço de posse fica escancarado no ar!
Olímpica
firme
gloriosa
tu passas e não te alcanço, Vida.
Caio suado de borco
no lodo...
O vento da noite badala nos ramos
sarcasmos canalhas.
Não avisto a vida!
Tenho medo, grito.
Creio em Deus e nos fantásticos ecos
do meu grito
que vêm de longe e de perto
do sul e do norte
que me envolvem
e esmagam:
— maldita selva, maldita selva,
antes o deserto, a sede e a morte!
(Manuel da Fonseca, in "Rosa dos Ventos")
Domingo, 5 de Dezembro de 2010
0307 - Sendo (2)
Se escrevo ou leio ou desenho ou pinto,
logo me sinto tão atrasado
no que devo à eternidade,
que começo a empurrar pra diante o tempo
e empurro-o, empurro-o à bruta
como empurra um atrasado,
até que cansado me julgo satisfeito.
(Tão gémeos são a fadiga e a satisfação)
Em troca, se vou por aí
sou tão intiligente a ver tudo o que não é comigo,
compreendo tão bem o que não me diz respeito,
sinto-me tão chefe do que está fora de mim,
dou conselhos tão bíblicos aos aflitos de uma aflição que não é minha,
que, sinseramente, não sei qual é melhor:
se estar sozinho em casa a dar à manivela da vida,
se ir por aí e ser Rei de tudo o que não é meu."
Almada Negreiros (Novembro de 1939)
Sexta-feira, 3 de Dezembro de 2010
0306 - Sendo




