Sábado, 21 de Maio de 2011

0363 - Por Setúbal

Estive nos últimos dias em Setúbal, num colóquio dedicado à questão do papel do sal em comunidades pré-históricas. Fui falar de um contexto de há 5000 anos onde se produziu sal, no vale do Sorraia, na altura um “braço” da Ria Flandriana do Tejo.

No dia inicial cheguei cedo, como de costume (algo genético, estou em crer) e fui-me sentar na margem do Sado (o local do colóquio era logo ali ao pé). Os ferries já atravessavam o estuário vindos, ou a caminho, de Tróia. Pescadores pescavam, que é o que os pescadores fazem, em pequenos batéis, utilizando apenas linha e anzol. Espalhavam-se pelo estuário, junto a Setúbal, fora dos canais de trânsito marítimo das grandes embarcações, mas sofrendo o ondulado provocado pela sua passagem.

Fiquei ali sentado a olhar e, entre umas mensagens de telemóvel, fui pensando nos Neolíticos que por ali viveram e se relacionaram com o estuário (mais ou menos aberto ao mar na altura – coisa discutida no colóquio). É um hábito que tenho quando me sento e olho, calmamente, uma paisagem: pensar noutras formas, prévias, de a perceber e vivenciar.

Acabei aquele bocadinho de dia a reparar num conjunto de pessoas que, num cais, saíam de um ferry e não pude deixar de pensar que nenhuma delas, que atravessavam provavelmente de forma diária o estuário, alguma vez olhara desta forma retrospectiva e inquisidora. Talvez seja presunção minha, mas senti-me fora do meu contexto, senti que a minha ciência vive fora do seu contexto. Naturalmente que nem uma coisa nem outra são possíveis. O que apenas nos faz consciencializar que os nossos contextos têm amplitudes tais que nos permitem sentir estranhos em casa e, por vezes, quase sentir que podemos olhar o mundo a partir de fora. Obviamente, são apenas as escalas de contextualização a funcionar, as quais geram escalas de exterioridade.

Fui depois para o colóquio e, de uma outra forma, voltei a sentir e a pensar estas coisas.

6 comentários:

analima disse...

Provavelmente haveria pessoas a pensar de forma "retrospectiva e inquisidora" mas não sei se alguma chegaria tão longe quanto o Neolítico. :) Mas é como dizes no texto: cada um olha o mundo à luz da sua própria experiência e aprendizagem.

A.C.Valera disse...

O que nos faz parecer aliens em certos contextos :).

Fada do bosque disse...

É... especialmente para alguém que raramente sai aqui da quinta. Quando me deparo com a vida na cidade, a correria, os tempos dos outros, sinto-me verdadeiramente um alien! Fico ansiosa por voltar! :)
Gostaria de deixar aqui esta petição. Eu acho que isto chegou a um ponto vergonhoso. Termos de assinar petições para não nos enganarem desta forma!
Obrigada. :)

Malcruz disse...

GOSTO DO SEU TEXTO SOBRE A CONTEMPLAÇÃO DO SÍTIO DE SETUBAL, E DA RECREAÇÃO MENTAL QUE NOS FAZ ENTRAR NO SEU DISCURSO E PASSEAR POR ELE. CRUZ FERNANDES

Pedro Alvim disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Pedro Alvim disse...

"os nossos contextos têm amplitudes tais que nos permitem sentir estranhos em casa e, por vezes, quase sentir que podemos olhar o mundo a partir de fora"

Estranhos na nossa casa. O Neo-lítico (em particular) traz uma poesia que é difícil de d-escrever.