Segunda-feira, 17 de Outubro de 2011

0392 - Fred e Ginger

O Ministro das Finanças é, de facto, cativante. O rigor que coloca, até no tempo que demora a anotar as perguntas (uma performance que é, em si, uma mensagem do rigor, atenção, seriedade, mas também encenação que procura colocar na sua actuação para a tornar mais notada pela diferença), não tem paralelo nas últimas décadas.

Tem uma maneira de estar que transmite segurança num quadro de insegurança. As suas intervenções são autênticas aulas de fazer política. É notável a forma como se escusa a pronunciar-se sobre hipóteses, respondendo, e com toda a razão, que as condicionantes que envolveriam as respostas a cenários hipotéticos não teriam cobertura mediática e que aquilo que seria respondido, necessariamente envolvido por eventualidades, seria apresentado como facto certo. Conhece bem o funcionamento dos media, mas enfrenta-o de forma digna e denunciando a própria estratégia armadilhada do jornalismo funcionar. E os jornalistas ficam desarmados.

Não sei se terá sucesso (logo se verá se terá razão, pois esta será medida por ele) nas suas políticas. Sei que obviamente serão (são) muito duras. Talvez fosse necessário classificar a situação actual como “estado de guerra” para que seja compreendida. Porque a sensação que tenho é que, pelo que ouço, as pessoas ainda não consciencializaram que não há dinheiro porque o país é pobre e não produz para sustentar os padrões de vida a que se habituou. E isto não é uma questão de ricos ou pobres. São contas de merceeiros. O que terá que existir, para que o esforço de guerra tenha sucesso, é que todos sejam chamados a dar o corpo às balas. E é aí que as coisas parecem menos bem feitas, ou talvez menos bem explicadas. A ver vamos. Mas parece faltar um golpe de asa comunicacional ao governo, algo de emocional, arrebatador, para esse esforço de guerra.

Mas voltando à exibição ministerial, desta vez houve um bónus: o bailado que fez com a Secretária de Estado, a qual se comportou ao nível do seu chefe. Pareciam o Fred e a Ginger. Cuidado na produção; trabalho nos bastidores; mas sem telepontos e transmitindo uma sensação de profissionalismo e seriedade.

Genuíno ou não, haveremos de ver. Mas é, repito, muito agradável de ver esta maneira de estar a que não estou habituado na política cá do burgo.

Independentemente do posicionamento político que possamos ter, da concordância ou discordância com as opções políticas tomadas, da consciência ou inconsciência da situação a que Portugal chegou e das razões porque aí chegou, o desempenho de hoje foi agradável de ver. Porquê? Porque finalmente se sente que está ali alguém que vale a pena. Mesmo que venha a ser trucidado pela dinâmica da conjuntura dos tempos ou da estrutura do país.

É dos poucos políticos que ouço com prazer, independentemente de concordâncias e discordâncias.

7 comentários:

Fada do bosque disse...

Estava a ouvi-lo falar na Antena1 e pensei logo em si...
Quanto ao ser trucidado, a ele e á classe política portuguesa, quanto mais depressa melhor!... a ver se se consegue reerguer um País da ruína e destroços em que o deixaram. Não houve nenhuma guerra e no entanto, tudo está destruído como se tivesse havido.
Pode até falar bem, pena que não diga nada... que de bom se possa extrair. Alíás diz que o corte do subsídio de férias e 13º mês é uma medida temporária de caracter de longa duração (muitos anos)e de seguida, fala da retoma económica para 2013!!! Não soube explicar este despautério!

A.C.Valera disse...

Cara Fada, como pode um país que se habituou a viver acima das suas possibilidades, que deve mais que aquilo que produz, ser viável ?
E já agora, não se desresponsabilize quem vota. Afinal, em última instância o poder está nos cidadãos, que o delegam nos políticos que escolhem.
Não vale reclamar liberdade, exercer a liberdade e depois fugir às consequências.
A classe política é fraquinha. Concordo. Mas é um reflexo. Desgastaram-se os melhores e promoveu-se a mediocridade. E quando alguém diferente surge, estranha-se.
Vivemos acima das nossas possibilidades ou, se quiser, das nossas disponibilidades.
O país com mais centros comerciais por m2, ou com mais telemóveis por ouvido, ou... ou... ou...
Quanto ao ministro, ele diz muito. Mas diz coisas que não se gostam e que não se querem ouvir. O que é diferente de não dizer nada.
E há tanto comentador que faria melhor...
Quanto ao resto, nada melhor que olhar para a História. Que falta que ela faz na escola e no resto da vida (embora nesta escola que temos seja de pouca consequência).
Perdoe-me, mas não é a este ministro que cabe explicar este despautério a que chegámos. Talvez nos caiba a nós explicar-lho a ele. Mas desconfio que ele já sabe.
Termino dizendo que o aprecio, embora não concorde com todas as decisões que foram tomadas pelo governo. É a minha maneira de estar.

Fada do bosque disse...

Vivemos acima das nossas possibilidades? Quem? nós ou os banqueiros? Que eu saiba vivemos sempre a apertar o cinto! crise em cima de crise e é a 3ª vez que o FMI cá está desde o 25 de Abril... e nunca na vida contraí um empréstimo bancário, porque sei que quando a esmola é grande o pobre desconfia.
Votei sim, só que não votaria nunca no bloco central e apêndice. Para os que votaram, têm o que merecem... mas a Democracia é um despotismo para as minorias.
Quanto a esta perspectiva já pensou nisso? ou vamos todos fechar os olhos e apoiar os governos que roubam ao povo para dar à banca?

Uma medida corajosa.

Numa entrevista à agência financeira Bloomberg, o presidente islandês tinha dito: "A diferença (com a Islândia) é que na Islândia nós aceitámos que os bancos fossem à falência. Eram bancos privados e não temos nada que injectar dinheiro para os manter; o Estado não tem que assumir a responsabilidade da falência dos bancos privados".


A crise era particularmente brutal para os islandeses. A falência do banco Icesave implicava assumir um reembolso, sobretudo ao Reino Unido e à Holanda, que custaria 40% do PIB islandês. Após os protestos populares, o Presidente da República recusou promulgar a lei que rectificava esse acordo de pagamento. Houve um referendo com 60% de participação e 93% da população recusou tal pagamento.

A.C.Valera disse...

Pois. Veja as participações dos referendos portugueses (ou das eleições). Talvez esteja aí a diferença.
Quanto ao vivermos acima das possibilidades, é uma observação colectiva, de país, e não de cada um de nós. E olhe que a expressão colectiva não é um mero somatório da actuação das partes, mas muito da percepção que as partes têm umas das outras.
O nosso problema é estrutural e tem séculos. Como o autor da expressão que dá nome a este blog bem o demonstrou.

Fada do bosque disse...

Caro professor,
Os partidos do poder seguem como inevitável a vinda da tróika.
O governo português executa apenas programas do sector financeiro, só não estamos ocupados militarmente porque os tempos são outros. Apesar de saberem o que acontece na Grécia e que o seu resgate será impossível, concordaram em desgraçar o Estado português e ceder a sua soberania.
O sector financeiro desarmou a democracia e quem concorda com as políticas financeiras acima das políticas como o caso do nosso governo está a contribuir para o engodo dos agiotas da banca. Não concordo que o nosso governo compactue com medidas duplamente inconstitucionais. Violam a Constituição portuguesa e sendo um crime já por si só, o Tratado de Lisboa, ainda o violam no artigo 125 para meterem o FMI e o BCE a governar o nosso País. O artigo 125 do TL, proíbe a ajuda destas duas entidades aos paises da União Europeia.
Sabemos qual é a dívida efectiva e qual o resultado da especulação?
Acha que um governo que está preocupado com a sua pátria, a soberania do seu país e o bem estar do seu povo não pediria uma auditoria à dívida? Pois eu acho que sim!

A cidadania ensina-se e o exemplo deve partir de cima. Nos Países do norte a campanha eleitoral está apenas em debates interessantes na TV, onde se discutem o ponto de vista dos candidatos! Aqui é uma bagunça vergonhosa! Feiras e ignorância absoluta em lidar com o povo que os poderá eleger!
Deixo aqui um excerto de um comentário no blogue "fio de prumo" que por acaso é da mãe de um dos nossos governantes e com o qual concordo... excepto quando diz que concorda com Cavaco, que foi um dos culpados do País se encontrar na penúria:

«(...)Tendo nascido em berço de ouro (comparativamente com a grande maioria do meus irmãos portugueses), sofro no entanto com os mais humildes e desvalidos, com os mais éticos, impolutos e providos de consciência e humanidade (sofro até pela abjecção de uma elite que os ajuda na sua formação com o telelixo que inunda as nossas casas).

«(...)Lastimo a "negritude" da fada, uma negritude feita de um rancor de sentimento de injustiça, de consciência arguta, de desorientação, de angústia profunda por se sentir ofendida em princípios que deviam ser básicos na cidadania. Portugal não devia fazer isto aos seus filhos! Exige a fada e bem, uma nova participação da cidadania. Não podemos continuar a ser sujeitos a mentirosos que dizem tudo e o seu contrário para se alcandorar(em) ao poder. Chegados lá a génese da sua "superioridade ética e intelectual" leva-os ao esquecimento do envolvimento modular do outro (a cidadania e mais grave o envolvimento da cidadania morre na eleição).

Fada do bosque disse...

continuação:Relativamente ao actual governo, concordando com algumas muitas medidas do lado da despesa (é a economia que forja a dimensão do estado e não o contrário), a minha condição de gestor e economista não me permite concordar com a forma bruta e com a ideologia subjacente (que demonstra uma enorme insensibilidade e desconhecimento da realidade - estou aqui com Cavaco à excepção da percepção dos dois sectores o público e privado) que continua a exercer o estrangulamento da economia e da sociedade civil. Aumentar impostos é estupidamente recorrente e destruidor.O mais distraído não percebe como é possível com estes aumentos de impostos a não destruição de quase todo o aparelho produtivo. Já se percebeu que Gaspar pretende a desvalorização salarial à força. Já se percebeu há muito que não temos economia para o estado que temos. Mas também já se percebeu que empobrecendo os Portugueses (e não assumindo a necessidade de renegociar um documento que não é a bíblia)a espiral de destruição e desmotivação não permitirá retorno. Entregar empresas a entidade privadas num mundo muito lotado é outra parvoíce. Que ninguém tenha dúvidas que a TAP não entregue a interesses Portugueses será brevemente desmembrada perdendo-se competências técnicas, empregos e riqueza sob a forma de entrada de divisas. A facilidade com que os capitais procuram acomodar-se hoje exige visão e compreensão para atrair para o nosso espaço. Um país que trata mal os contribuintes e os asfixia não tem alternativa porque quando se fala da necessidade de competitividade não se pode ter uma prática contrária.

Visão estratégica é preciso e não um tecnicismo de Bruxelas. Ou esqueceram-se do Jaime Silva de Bruxelas que destruiu a nossa agricultura?

O meu caminho (como o caminho de centenas de milhar ou milhões de Portugueses será a emigração), até para poupar os geniais políticos de assistirem a mestres e doutorados a pedirem nas ruas»

Fada do bosque disse...

Quanto à falta de cidadania, de que já Eça tanto se queixava, dou-lhe um exemplo muito concreto:
Lembra-se de eu vir aqui deixar um comentário dizendo que uma "amiga" comum da blogosfera me tinha censurado um comentário?! Pois bem, eu era comentadora desse blogue, o restolhando, e sempre fui recebida com os salamaleques inerentes a uma pseudo intelectual, "pessoanista" fanática e portanto de bom tom, tais mordomias. Até que um dia já em campanha eleitoral me pespega com um artigo de um tal neo-liberal fanático, Soromenho Marques, já batido no Sistema, a dizer as razões da força de imposição da tróika e que tal era inevitável e única solução e claro, a pseudo intelectual a apoiar veementemente. Para espanto meu, fazia propaganda e campanha no seu artístico e intelectualíssimo blogue.
O meu comentário pouco diferia do que escrevi no comentário acima, sobre a auditoria à dívida.
As pessoas mais informadas e em alturas de crise muito mais, devem informar os seus concidadãos das hipóteses que podem escolher e não fazer o mesmo papel dos Media de Massa, a impor e a fazer a lavagem cerebral porque os Media estão ao serviço das corporações e do poder financeiro, que como se sabe é uma arma muito poderosa na lavagem de cérebros. A isso chamo cidadania, dar a conhecer aos outros aquilo que sabemos. É por isso que "perco tempo" a fazer comentários!
Esperei uma semana que a Maria Josefa me libertasse o comentário... qual não é o meu espanto, quando entra no meu gmail outro comentário que não o meu, mas da pessoa que veio a seguir e claro, um valente elogio!... esse passou.
Fiquei para morrer e difundi pelo maior nº de blogues o que me tinha feito a senhora. Isto porquê? Porque para que este país deixe de ser o que é e dê um impulso para a frente, é preciso ter a coragem de denunciar estas pessoas que agem por interesse próprio em desfavor de todos os outros, do interesse geral. São pessoas que andam no rasto do poder e do dinheiro!
A mãe do governante que acima referi, a drª Helena Sacadura Cabral, sabe o que é a cidadania! Nunca me censurou um comentário,nem a ninguém penso eu, mas da última vez disse que a magoava quando falava assim do filho, pois ao falar em governantes incluía-o! Grande Senhora! Pedi-lhe desculpa e pediria um milhão de vezes, mesmo não concordando com o que o filho faz. Porque mesmo não concordando passa a informação e depois em comentário contra argumenta e tem já aguentado muito... e não só de mim que sei que não sou pêra doce.
Quanto à outra senhora pseudo gulbenkiana e pessoana, é como todos os outros que andam ao tacho. Apenas bloqueou a informação que não interessava, em vez de dizer porque não concordava! Talvez falta de argumentos. E foi nessa altura que me apeteceu tê-la ao pé para lhe espetar com duas valentes estaladas, porque isso não se faz!
Este País está cheio de hipócritas.
Começassem todos a denunciar estes interesseiros e veríamos se o país não dava uma volta de 180º! Até o Eça se levantaria da tumba!
Por este exemplo ridículo se vê porque não anda este País para a frente e nunca será como os do norte da Europa... é um Pais que penaliza quem denuncia e dá regalias a quem comete os crimes, porque a corrupção, os interesses e a falta de cidadania, partem do exemplo das altas esferas e das pessoas mais "cultas". É caso para dizer que dentro de pouco tempo os lisboetas e não só, se vão ver gregos!
Venha a guerra civil para se purificar este sangue corrupto que se sobrepôs ao Bem! Parece que não irá de outra forma.

Desculpe se lhe tomei muito tempo.