Sexta-feira, 16 de Dezembro de 2011

0398 - Prémio Pessoa

O "padroeiro" deste blog (remeto os leitores para os primeiros "post") recebeu o Prémio Pessoa deste ano. Motivo para, ao fim de uma ausência relativamente prolongada, eu aqui regressar e, de certa forma, "abrir" a minha primeira prenda de Natal.

Prenda porque não posso deixar de me sentir feliz pela justiça de uma atribuição que traduz (não chancela) inequivocamente qualidade, a qual, com esta dimensão, rareia nos tempos que correm por estas bandas. Prenda, também, por revelar que a capacidade de reconhecer e premiar a qualidade e a excelência do pensamento ainda resiste ao mediatismo, à conveniência, ao clientelismo e ao exibicionismo desalmado. Este prémio é uma verdadeira realidade prodigiosa.

E nada mais justo que seja Pessoa o patrono do prémio, como se de um reencontro de velhos conhecidos se tratasse.

Um reencontro onde se pode reconhecer muita, tanta, actualidade:

"O nacionalismo de Pessoa é de outra ordem e de outro alcance. É o que estrutura a Mensagem e que, talvez por contingências da política do tempo, tão mal compreendido e interpretado foi pela geração presencista, sinseramente universalista em geral e sem dúvida também por isso desconfiada diante desse aparente novo avatar do patriotismo nacional. É verdade que em Mensagem, mais do que nos aspectos "vanguardistas" da sua obra, se colhe, com maior evidência, uma inegável ambiguidade que faz parte do seu tão peculiar modernismo. (...) o modernismo de Pessoa não foi e não será nunca apologia e delírio da quotidianidade presente e suas fulgurações, mera apologia do novo, mas consciência das insolúveis contradições do mundo moderno e da mesma modernidade, porventura até, rejeição do seu próprio espírito. De Portugal enquanto realidade presente não espera Pessoa nada. Do Portugal como nauta de si mesmo, como história-profecia de que Mensagem interroga os anúncios e os signos sucessivos, tudo."

(Eduardo Lourenço, "Da literatura como interpretação de Portugal", O Labirinto da Saudade, Gradiva, 5ª edição, 2007, p.113-114)

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