Terça-feira, 27 de Dezembro de 2011

0403 - (ir)realidades

"Amigo,
tu que choras uma angústia qualquer
e falas de coisas mansas como o luar
e paradas
como as águas de um lago adormecido,
acorda!
Deixa de vez
as margens do regato solitário
onde te miras
como se fosses a tua namorada.
Abandona o jardim sem flores
desse país inventado
onde tu és o único habitante.
Deixa os desejos sem rumo
de barco ao deus-dará
e esse ar de renúncia
às coisas do mundo.
Acorda, amigo,
liberta-te dessa paz podre de milagre
que existe
apenas na tua imaginação.
Abre os olhos e olha,
abre os braços e luta!
Amigo,
antes de a morte vir
nasce para a vida.
(Manuel da Fonseca, Antes que seja tarde, Obra poética)

Li este poema sentado nas muralhas do Castelo de São Jorge, sobranceiro à Lisboa ensolarada dos últimos dias. Um belo poema. Pelo seu realismo e, sobretudo, pelo seu irrealismo ou, se quiserem, pelo seu paradoxo.
"Respondi", no meu caderninho de notas, a Manuel da Fonseca. Respondi-lhe que este belo poema, sendo um exemplo máximo da corrente filosófica da arte que procura representar, é igualmente um exemplo do seu oposto. Como se nos fosse possível viver sempre acordados, sem dormir (sonhar). Como se este poema não fosse, também ele, um sonho que se suspeita acordado. Como se o nascer para a vida não fosse um parto em que a mãe é uma quimera, por vezes partilhada, por vezes solitária, ou simplesmente uma versão pessoal de uma ilusão ou desejo compartido.
"Renúncia às coisas do mundo". Humm... quantas vezes começou aí a trasnformação da tal proclamada "realidade". As ideias são sementes e podem ser geradas em estufas (quentes ou frias) que, por definição, são ambientes diferentes do que as rodeia.
O neo-realismo foi, talvez, uma das visões mais paradoxais da arte. E também, uma vez mais paradoxalmente (ou talvez não), uma das mais profícuas.

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