E, de repente, a polémica rebentou. Mais uma entretenga. Mas esta prendeu-me a atenção. Não tanto pelos protagonistas e a sua tradicional “falta de jeito” e demagogia, mas pelo que nela pode ser esclarecedor da nossa irrealidade prodigiosa.
Refiro-me à “escandalosa” referência feita pelo Primeiro Ministro à emigração como saída para certos grupos profissionais, ou mesmo, para Portugal. A referência feita assim, como sugestão, caiu mal a muita gente. E eu concordo. Não deveria ter sido uma sugestão. Faltou assertividade ao político na hora de falar sobre a verdade.
E a verdade é que a emigração faz parte integrante da formação do Portugal como Nação e como Estado. Aliás, desde 1415 que não adoptámos outra estratégia para resolver os problemas internos. E a essa saída chamámos nós epopeia. E bem. Porque todas as epopeias, tendo uma motivação social, económica e de gestão política, apresentam igualmente uma dimensão de coragem, arrojo, sonho, ilusão, mistério e consequente curiosidade que as parece elevar acima do mesquinho interesse quotidiano, à condição de trajectos que aproximam a humanidade da divindade.
No entanto, essa emigração cantada por um dos momentos mais nobres da nossa poesia, é socialmente sentida de uma forma diferente das suas expressões mais recentes, igualmente cantadas, mas por “Verdes Minhos” de popularidade assegurada, mas mortal.
Que nos leva a ter orgulho nostálgico e irrealista relativamente à primeira e vergonha e realismo relativamente à segunda? Porque na primeira fomos pioneiros e senhores e na segunda simples mão-de-obra serviçal? Porque a vaga mais recente revelou o que a primeira camuflou? Seja. Mas, arrojado ou arrastado, Portugal teve sempre que sair de si próprio como solução de si próprio. Sempre. Salvo nas últimas décadas.
Sim, salvo nas últimas décadas. Não que tenhamos descoberto maneira de nos sustentar cá dentro, mas porque encontrámos uma nova forma de nos sustentarmos lá fora sem ter que ir lá para fora. Ao deixar o Atlântico e ao “tornar-se continental”, passando a estar orgulhosamente acompanhado, Portugal embarcou numa nova aventura, que tem também os seus foros de Epopeia. Mas nesta nova etapa o dinheiro entrou sem que implicasse saída, arrojo, descoberta, sacrifício. E a ilusão, por momentos desmascarada, renovou-se com nova cara. Parecia agora que Portugal já não precisaria mais de sair de si próprio (mesmo que 1/3 da sua nação estivesse para lá das suas fronteiras). Pura fantasia. É, como dizia Pessoa (que aqui citava através de Eduardo Lourenço há dias), enquanto nauta de si próprio que Portugal sobrevive e constrói a sua identidade.
Os últimos anos transformaram-nos, tal qual ao General de Legião em anafado Senador, num país de acomodados, de proliferação de mediocridade, de falta de exigência ética, seja ela colectiva ou individual. Parece não ter sido depois da descoberta do caminho marítimo para a Índia que ficou vazia a cabeça dos portugueses. Parece ter sido depois da adesão à Comunidade Europeia. Num mundo que ajudámos a globalizar, pensávamos poder viver agora, felizes e contentes, dentro das nossas quatro paredes. À conta, sempre à conta. E só assim se compreende a ofensa das declarações ministeriais.
Mas não. E num quadro em que a economia é já de facto quase, quase, mundial (restam-nos nichos de memória de um passado autárquico longínquo), Portugal terá que voltar a sair de si próprio (o que, na verdade, nunca deixou de fazer). A nova diáspora, porém, diz-se diferente: menos aventureira e temerária, menos maltrapilha, menos de cartão; mais “qualificada”. Mas dizer não é ser e a saída não será menos desesperada, onde todas as condições serão embarcadas.
Mas há diferença. Nesta nova saída, tal como na última, já não somos vanguarda. Já acrescentaremos, enquanto colectivo, muito pouco de relevante ao mundo (teremos, contudo, sempre os nossos Cristianos Ronaldos). Não temos o saber e a tecnologia para o fazer. As novas caravelas descobridoras não se fazem com madeira dos pinhais de Leiria nem com saberes atlânticos de experiência feitos. Mas também não temos a alma, acomodada por dinheiros Europeus.
Portugal terá que continuar a sair de si próprio. O que disse o senhor Primeiro Ministro foi o óbvio. Mas o óbvio em política não se diz.
0094 – The irregularity of ditches.
-
The inner ditch of the enclosure in excavation process: 1,5m deep in first
plan survey (back of the dich); 1,3m deep in the next one; 0,8 at the gate.
N...
Há 3 dias


7 comentários:
Gosto da forma como colocas a questão. Sobretudo o que disseste sobre a União Europeia é uma verdade. Mas em relação ao conteúdo discordo numa coisa básica: o papel do PM. É que, perante a realidade que se vive em Portugal, a emigração é já um facto. E já não é de agora. Certamente que o ritmo abrandou. Mas Portugal nunca deixou de ser um país de emigrantes, ao contrário do que dizes. As estatísticas e vários estudos mostram-no. E tem aumentado o número de emigrantes entre os mais jovens, enquanto que a taxa dos mais velhos tem sido mais ou menos constante. Mais recentemente entre algumas profissões tem sido mais relevante. A forma como cada um dos emigrantes analisa a sua situação será certamente muito particular mas, em termos gerais, claro que a situação económica do país conta bastante. É óbvio que há situações muito diferentes: os que têm como objectivo de vida ter experiências profissionais noutros países e aqueles que se vêem empurrados como forma de sobreviver.
Mas no meio de tudo isto é o apelo do PM e depois de Paulo Rangel que considero completamente errado. Esse não é o seu papel. A emigração será sempre um recurso. Mas não poderá ser incentivada por quem tem responsabilidade. Somos um país envelhecido e este é um dos nossos maiores problemas. E fomenta-se a saída dos jovens que são quem poderá contribuir para o aumento da taxa de natalidade daqui a uns anos? Muitos sairão de qualquer maneira. Não é preciso serem convidados a fazê-lo por quem deveria ter um papel de valorização do contributo de todos. Para mim é óbvio que Passos Coelho não o deveria ter feito.
HAJA VERGONHA!!!
Tenho nos ouvidos as palavras de Lula da Silva quando disse que "a maior riqueza dum país é o seu Povo"!!
Bom, relativamente ao primeiro comentário, relembraria o que disse no post: "Portugal terá que voltar a sair de si próprio (o que, na verdade, nunca deixou de fazer)." Se o que o PM disse é ou não oportuno, isso depende do nível de hipocrisia que gostamos e simultaneamente não gostamos no discurso político. Porque há certas coisas que supostamente, sendo verdade, não devem ser ditas pelos líderes políticos, deverá ser matéria de reflexão cuidada a razão porque, num determinado momento, são ditas. E que cada um tire as suas conclusões, as quais, como em qualquer processo hermenêutico, são mais da responsabilidade de quem interpreta do que de quem disse.
Quanto ao segundo comentário, diria que, mais que vergonha, é necessário memória. Reativamente à trajectória histórica de Portugal; relativamente à trajectória histórica do Brasil.
Finalmente o problema demográfico. A emigração será sempre um problema para um país já com a pirâmide demográfica invertida. Como durante uns anos foi benéfica a crescente entrada de imigrantes no nosso país (inclusivante muitos brasileiros). Sim, porque em dificuldades, a "riqueza" de muitos povos do Leste europeu e de outros continentes veio até Portugal e até outros países europeus, como sempre acontece que historicamente a "riqueza" dos países se confronta com a sua própria pobreza.
O problema poderá ser discutido ao nível de cada caso particular. Mas aí, penso, discutimos pequenas conjunturas e, temo, ficaremos inflamados e algo desfocados, argumentando em favor de prodigiosas irrealidades. O trend estrutural, esse, é outro. É o de um centro de uma economia mundo antiga a ruir perante uma globalização que transferiu centros de poder para antigas periferias e semi-periferias.
Mas o sistema não está a colapsar, apenas a mudar os seus epicentros de poder, como no passado os mudou do Mediterrâneo Central, para o Norte Europeu, rearranjando a rede de dependências periféricas. Aqui a novidade poderia ser mesmo a transferência desses centros para as periferias. Mas nem isso é novo, se nos lembrarmos do que aconteceu com Estados Unidos ou com o Japão durante o século XX.
Naturalmente que o problema muda dependendo da escala de análise a que o quisermos colocar. Mas certas indignações podem ser sempre evocadas. A riqueza de Fornos de Algodres, como de tantas terras do interior, é o seu povo. E no entanto o interior está despovoado, o litoral abarrotado e o país "inclinado". Estas migrações em pouco diferem, nos traumas e nos sucessos, de tantas emigrações. Mas para abordar estes fenómenos não basta apontar dedos a certas políticas conjunturais e evocar "punch lines" tão bonitas quanto ocas. É preciso olhar os movimentos migratórios como parte integrante dos processos e dinâmicas históricas as quais são como as marés: cíclicas, subterrâneas e pujantes.
A metáfora que se me ocorre é geológica: a da deriva dos continentes e a renovação dos mapas do planeta. Só que não os geográficos, mas os sociais, económicos e políticos.
A expansão planetária dos ideais de liberdade, de igualdade de direitos e independência política e económica só poderia fazer colapsar um centro em favor das suas periferias. A crise Europeia é mais estrutural que a crise de uma moeda. A Europa continuará a perder preponderância no mundo, porque o mundo que durante séculos controlou e subjugou (política e/ou economicamente) está hoje à solta e com uma margem de crescimento proporcional ao atraso que lhe foi imposto durante séculos e que permitiu ao Velho Mundo atingir os padrões de vida que atingiu. E África ainda nem sequer entrou em jogo. Movimentos populacionais muito significativos voltam, pois, a anunciar-se. Como se anunciam sempre que um status quo entra em dificuldades. Trazer este problema para o debate político e social de um país só pode ser positivo. O negativo aqui, foi, repito, a forma quase envergonhada com que se lançou o assunto. Um assunto sério, que merece uma abordagem séria e que não se compadesse com a imaturidade analítica (caseira e bairrista) ou demagogia política que apreciei em muitas das reacções públicas nos media.
A emigração vai voltar a bater-nos à porta em força. Deveremos tapar os olhos, os ouvidos e a boca ou enfrantar o assunto?
E como é que eu faço que agora não tenho tempo para "ler" com atenção a tua resposta e responder? Vou ter que fazer isso mais tarde...
Tudo o que dizes faz sentido. Estamos então de acordo que a emigração é um fenómeno demográfico constante no nosso país. E não há que querer fingir que isso não é assim. Faz todo o sentido que a realidade não seja escamoteada. Aliás , pelo contrário, falar destes temas é fundamental. Mas, na minha interpretação (:))continuo a achar que o PM não deveria ter dito o que disse da forma que disse. E não acho que fosse hipocrisia. Ou então, as decisões que se tomam em política são todas hipócritas (possibilidade que não podemos descartar.)
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