
"Boneco" que actualmente pode ser visto pendurado no telhado na igreja de St Maire Eglise e que evoca o soldado paraquedista americano que ali ficou pendurado e assistiu ao massacre dos seus camaradas pelas tropas alemãs, quando a sua companhia foi lançada sobre o local errado durante o "D Day".
Já visitei por duas vezes as zonas do desembarque do “D Day” da 2ª Guerra Mundial na Normandia. Nas duas situações, separadas por cerca de dez anos, vi coisas diferentes e fiquei com vontade de voltar, porque outras haverá para ver e porque o assunto me toca.
Quero voltar porque é um terreno de memória absolutamente espantoso, onde ainda é possível ver os efeitos do momento, percorrer os seus espaços, sentir (enfim... ter uma ideia) o que por ali se passou. E garanto, é uma experiência que não se esquece e que nos revela uma dimensão que livros e filmes, por mais brilhantes, não conseguem revelar. O original é insubstituível. E ainda há vestígios do original... ainda.
Em 1991, na praia de “Omaha”, apanhei balas e restos de estilhaços. Abundavam ainda nas areias. Em Arronches ainda se podem ver hoje no Google os segmentos das “pontes” flutuantes que permitiram o desembarque de tanques e outro material pesado. Em St. Maire Eglise podemos apreciar um museu dedicado ao massacre das tropas paraquedistas americanas e conhecer episódios únicos e inesperados que humanizam o que parece absolutamente desumano.
Existe uma musealização dos vários pontos do ataque aliado. E existe um cuidado em manter os restos da linha de defesa alemã, para memória do que foi e não deveria ter sido. Ao contrário de outros tempos, não se arrasaram os restos das “bastilhas”arrasadas nesse dia. Existiu o bom senso de as preservar, como que para afirmar que tentar apagar nem sempre será a melhor maneira de evitar que o indesejável retorne. Essas são práticas antigas, em que Sés se construíram sobre ruínas de Mesquitas. O passado indesejável não se esquece, relembra-se, e assim se controlam potenciais “neo-qualquercoisas”.
Veio-me esta temática na sequência de pensamentos do “post” anterior. Já visitei outras fronteiras de grandes conflitos. A pluralidade de sítios que compõem a romana “Muralha de Adriano” ou alguns dos fortes “restaurados” das nossas Linhas de Torres. Mas a “Muralha do Atlântico” tem outro impacto. Talvez porque mais próxima no tempo; talvez porque paradoxalmente seja mais anacrónica.
Mas mantêm-se ali, como uma cicatriz no actual europeísmo. A questão que me coloco é se estará totalmente cicatrizada?... Onde nos poderá levar esta crise europeia? Teremos atingido estados de maturidade de não retorno?... Será bom ir dar umas voltas pelas costas da Normandia.


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