Quarta-feira, 28 de Dezembro de 2011

0404 - Comédia humana

Procuro sempre acompanhar as notícias na televisão, embora o actual conceito de notícia não seja nada pacífico.
Mas não é sobre isso que quero falar, mas sobre três notícias em concreto que ouvi.

1ª. O funeral do Querido Líder na Coreia do Norte. Milhares de coreanos choravam compulsivamente pelas ruas onde o cortejo circulou durante 3 horas(e o melhor que podemos esperar é que, de facto, tudo aquilo seja encenação, caso contrário...). Nevava e um oficial perguntava como poderia o céu não “chorar” assim, perante tão dramático acontecimento. Para terminar, afirmava-se que provavelmente será decretado um luto oficial durante 3 anos. Ali, a comédia humana parece não ter limites.

2ª Ali como noutros lados. Pois pouco depois noticiava-se que algures em Jerusalém (creio) padres ortodoxos e apostólicos que, de vassouras em punho, se preparavam para limpar uma Igreja, se desentenderam sobres as partes que cada grupo deveria limpar. Resultado: padres à vassourada uns contra os outros, em imagens que só podem provocar uma gargalhada geral. Digno dos Monty Python, e fazendo recordar com saudade o pacato legionário (ou preso, já não recordo bem) corso, que, num dos álbuns de Astérix, pacífica e lentamente acabava de varrer a primeira metade da primeira laje e, em breve, passaria à limpeza da segunda metade da primeira laje.

3ª Finalmente uma notícia que estancou o gargalhar já desesperado, me tocou de humanidade e me colocou um sereno sorriso nos lábios: Chita, a chimpanzé dos filmes de Tarzan, faleceu. As imagens do velho símio foram comoventes e suscitaram-me reverência.

Que prodigiosa irrealidade a nossa.

Terça-feira, 27 de Dezembro de 2011

0403 - (ir)realidades

"Amigo,
tu que choras uma angústia qualquer
e falas de coisas mansas como o luar
e paradas
como as águas de um lago adormecido,
acorda!
Deixa de vez
as margens do regato solitário
onde te miras
como se fosses a tua namorada.
Abandona o jardim sem flores
desse país inventado
onde tu és o único habitante.
Deixa os desejos sem rumo
de barco ao deus-dará
e esse ar de renúncia
às coisas do mundo.
Acorda, amigo,
liberta-te dessa paz podre de milagre
que existe
apenas na tua imaginação.
Abre os olhos e olha,
abre os braços e luta!
Amigo,
antes de a morte vir
nasce para a vida.
(Manuel da Fonseca, Antes que seja tarde, Obra poética)

Li este poema sentado nas muralhas do Castelo de São Jorge, sobranceiro à Lisboa ensolarada dos últimos dias. Um belo poema. Pelo seu realismo e, sobretudo, pelo seu irrealismo ou, se quiserem, pelo seu paradoxo.
"Respondi", no meu caderninho de notas, a Manuel da Fonseca. Respondi-lhe que este belo poema, sendo um exemplo máximo da corrente filosófica da arte que procura representar, é igualmente um exemplo do seu oposto. Como se nos fosse possível viver sempre acordados, sem dormir (sonhar). Como se este poema não fosse, também ele, um sonho que se suspeita acordado. Como se o nascer para a vida não fosse um parto em que a mãe é uma quimera, por vezes partilhada, por vezes solitária, ou simplesmente uma versão pessoal de uma ilusão ou desejo compartido.
"Renúncia às coisas do mundo". Humm... quantas vezes começou aí a trasnformação da tal proclamada "realidade". As ideias são sementes e podem ser geradas em estufas (quentes ou frias) que, por definição, são ambientes diferentes do que as rodeia.
O neo-realismo foi, talvez, uma das visões mais paradoxais da arte. E também, uma vez mais paradoxalmente (ou talvez não), uma das mais profícuas.

0402 - Pensamentos negros



"Boneco" que actualmente pode ser visto pendurado no telhado na igreja de St Maire Eglise e que evoca o soldado paraquedista americano que ali ficou pendurado e assistiu ao massacre dos seus camaradas pelas tropas alemãs, quando a sua companhia foi lançada sobre o local errado durante o "D Day".

Já visitei por duas vezes as zonas do desembarque do “D Day” da 2ª Guerra Mundial na Normandia. Nas duas situações, separadas por cerca de dez anos, vi coisas diferentes e fiquei com vontade de voltar, porque outras haverá para ver e porque o assunto me toca.

Quero voltar porque é um terreno de memória absolutamente espantoso, onde ainda é possível ver os efeitos do momento, percorrer os seus espaços, sentir (enfim... ter uma ideia) o que por ali se passou. E garanto, é uma experiência que não se esquece e que nos revela uma dimensão que livros e filmes, por mais brilhantes, não conseguem revelar. O original é insubstituível. E ainda há vestígios do original... ainda.

Em 1991, na praia de “Omaha”, apanhei balas e restos de estilhaços. Abundavam ainda nas areias. Em Arronches ainda se podem ver hoje no Google os segmentos das “pontes” flutuantes que permitiram o desembarque de tanques e outro material pesado. Em St. Maire Eglise podemos apreciar um museu dedicado ao massacre das tropas paraquedistas americanas e conhecer episódios únicos e inesperados que humanizam o que parece absolutamente desumano.
Existe uma musealização dos vários pontos do ataque aliado. E existe um cuidado em manter os restos da linha de defesa alemã, para memória do que foi e não deveria ter sido. Ao contrário de outros tempos, não se arrasaram os restos das “bastilhas”arrasadas nesse dia. Existiu o bom senso de as preservar, como que para afirmar que tentar apagar nem sempre será a melhor maneira de evitar que o indesejável retorne. Essas são práticas antigas, em que Sés se construíram sobre ruínas de Mesquitas. O passado indesejável não se esquece, relembra-se, e assim se controlam potenciais “neo-qualquercoisas”.

Veio-me esta temática na sequência de pensamentos do “post” anterior. Já visitei outras fronteiras de grandes conflitos. A pluralidade de sítios que compõem a romana “Muralha de Adriano” ou alguns dos fortes “restaurados” das nossas Linhas de Torres. Mas a “Muralha do Atlântico” tem outro impacto. Talvez porque mais próxima no tempo; talvez porque paradoxalmente seja mais anacrónica.

Mas mantêm-se ali, como uma cicatriz no actual europeísmo. A questão que me coloco é se estará totalmente cicatrizada?... Onde nos poderá levar esta crise europeia? Teremos atingido estados de maturidade de não retorno?... Será bom ir dar umas voltas pelas costas da Normandia.

Sábado, 24 de Dezembro de 2011

0401 - The power of Christmas



No Natal de 1914, o primeiro passado durante a 1ª Guerra Mundial, o insólito (ou talvez não) aconteceu. Os soldados de ambas as trincheiras sairam, aproximaram-se, cumprimentaram-se, partilharam. A ironia deste acontecimento histórico é absolutamente gritante, assim como o seu silenciamento e quase esquecimento. As altas patentes, de ambos os lados, trataram de que a coisa não mais se repetisse. Hoje, o mediatismo piegas, que vomita todos os anos as mesmas banalidades, raramente consegue que o Natal passe de um espectáculo inconsequente.

O Natal é apenas uma espécie de intervalo, como foi o daqueles campos franceses de 1914. Mas há intervalos que podem fazer mudar a segunda parte. Aqueles soldados e oficiais de baixa patente não mudaram, com aquele gesto, o curso dos anos seguintes. Mas estou em crer que se mudaram a eles e que protagonizaram um dos mais belos momentos de Natal. Seria interessante lembrá-lo quando, daqui a três anos, fizer cem.

Até lá, fica um dos poucos momentos em que foi recordado.

Segunda-feira, 19 de Dezembro de 2011

0400 - A insustentável leveza portuguesa

E, de repente, a polémica rebentou. Mais uma entretenga. Mas esta prendeu-me a atenção. Não tanto pelos protagonistas e a sua tradicional “falta de jeito” e demagogia, mas pelo que nela pode ser esclarecedor da nossa irrealidade prodigiosa.

Refiro-me à “escandalosa” referência feita pelo Primeiro Ministro à emigração como saída para certos grupos profissionais, ou mesmo, para Portugal. A referência feita assim, como sugestão, caiu mal a muita gente. E eu concordo. Não deveria ter sido uma sugestão. Faltou assertividade ao político na hora de falar sobre a verdade.

E a verdade é que a emigração faz parte integrante da formação do Portugal como Nação e como Estado. Aliás, desde 1415 que não adoptámos outra estratégia para resolver os problemas internos. E a essa saída chamámos nós epopeia. E bem. Porque todas as epopeias, tendo uma motivação social, económica e de gestão política, apresentam igualmente uma dimensão de coragem, arrojo, sonho, ilusão, mistério e consequente curiosidade que as parece elevar acima do mesquinho interesse quotidiano, à condição de trajectos que aproximam a humanidade da divindade.

No entanto, essa emigração cantada por um dos momentos mais nobres da nossa poesia, é socialmente sentida de uma forma diferente das suas expressões mais recentes, igualmente cantadas, mas por “Verdes Minhos” de popularidade assegurada, mas mortal.

Que nos leva a ter orgulho nostálgico e irrealista relativamente à primeira e vergonha e realismo relativamente à segunda? Porque na primeira fomos pioneiros e senhores e na segunda simples mão-de-obra serviçal? Porque a vaga mais recente revelou o que a primeira camuflou? Seja. Mas, arrojado ou arrastado, Portugal teve sempre que sair de si próprio como solução de si próprio. Sempre. Salvo nas últimas décadas.

Sim, salvo nas últimas décadas. Não que tenhamos descoberto maneira de nos sustentar cá dentro, mas porque encontrámos uma nova forma de nos sustentarmos lá fora sem ter que ir lá para fora. Ao deixar o Atlântico e ao “tornar-se continental”, passando a estar orgulhosamente acompanhado, Portugal embarcou numa nova aventura, que tem também os seus foros de Epopeia. Mas nesta nova etapa o dinheiro entrou sem que implicasse saída, arrojo, descoberta, sacrifício. E a ilusão, por momentos desmascarada, renovou-se com nova cara. Parecia agora que Portugal já não precisaria mais de sair de si próprio (mesmo que 1/3 da sua nação estivesse para lá das suas fronteiras). Pura fantasia. É, como dizia Pessoa (que aqui citava através de Eduardo Lourenço há dias), enquanto nauta de si próprio que Portugal sobrevive e constrói a sua identidade.

Os últimos anos transformaram-nos, tal qual ao General de Legião em anafado Senador, num país de acomodados, de proliferação de mediocridade, de falta de exigência ética, seja ela colectiva ou individual. Parece não ter sido depois da descoberta do caminho marítimo para a Índia que ficou vazia a cabeça dos portugueses. Parece ter sido depois da adesão à Comunidade Europeia. Num mundo que ajudámos a globalizar, pensávamos poder viver agora, felizes e contentes, dentro das nossas quatro paredes. À conta, sempre à conta. E só assim se compreende a ofensa das declarações ministeriais.

Mas não. E num quadro em que a economia é já de facto quase, quase, mundial (restam-nos nichos de memória de um passado autárquico longínquo), Portugal terá que voltar a sair de si próprio (o que, na verdade, nunca deixou de fazer). A nova diáspora, porém, diz-se diferente: menos aventureira e temerária, menos maltrapilha, menos de cartão; mais “qualificada”. Mas dizer não é ser e a saída não será menos desesperada, onde todas as condições serão embarcadas.

Mas há diferença. Nesta nova saída, tal como na última, já não somos vanguarda. Já acrescentaremos, enquanto colectivo, muito pouco de relevante ao mundo (teremos, contudo, sempre os nossos Cristianos Ronaldos). Não temos o saber e a tecnologia para o fazer. As novas caravelas descobridoras não se fazem com madeira dos pinhais de Leiria nem com saberes atlânticos de experiência feitos. Mas também não temos a alma, acomodada por dinheiros Europeus.

Portugal terá que continuar a sair de si próprio. O que disse o senhor Primeiro Ministro foi o óbvio. Mas o óbvio em política não se diz.

Sábado, 17 de Dezembro de 2011

0399 - Manuel da Fonseca



Finalmente. Depois de tanto procurar e esperar, 2011 deu-me outra prenda: a reedição da Obra Poética de Manuel da Fonseca.

Só para "petiscar":

"Florbela às vezes descia
às casas ricas da vila.
Falava de tal maneira
que ninguém a entendia
nas casas ricas da vila.

Senhora na sua terra,
sua terra abandonou...
- porque lá ninguém a queria...

Senhora numa cidade
Florbela às vezes descia
às casas dos lavradores.
Falava (como tu cantas
ó Maria Campaniça!...)
falava...- quem a entendia
nas casas dos lavradores?!...
Senhora numa cidade, a cidade abandonou...:
- porque lá ninguém a queria..."

(excerto de "Para um poema a Florbela")

Só mais uma coisa: aproveite, quem por aqui passar e pela dimensão interventiva da arte se interessar, para ir apreciar (se ainda não apreciou) o museu do Neo-Realismo português em Vila Franca de Xira. Vale muito a pena e por lá encontrará Manuel da Fonseca e o seu contexto.

Sexta-feira, 16 de Dezembro de 2011

0398 - Prémio Pessoa

O "padroeiro" deste blog (remeto os leitores para os primeiros "post") recebeu o Prémio Pessoa deste ano. Motivo para, ao fim de uma ausência relativamente prolongada, eu aqui regressar e, de certa forma, "abrir" a minha primeira prenda de Natal.

Prenda porque não posso deixar de me sentir feliz pela justiça de uma atribuição que traduz (não chancela) inequivocamente qualidade, a qual, com esta dimensão, rareia nos tempos que correm por estas bandas. Prenda, também, por revelar que a capacidade de reconhecer e premiar a qualidade e a excelência do pensamento ainda resiste ao mediatismo, à conveniência, ao clientelismo e ao exibicionismo desalmado. Este prémio é uma verdadeira realidade prodigiosa.

E nada mais justo que seja Pessoa o patrono do prémio, como se de um reencontro de velhos conhecidos se tratasse.

Um reencontro onde se pode reconhecer muita, tanta, actualidade:

"O nacionalismo de Pessoa é de outra ordem e de outro alcance. É o que estrutura a Mensagem e que, talvez por contingências da política do tempo, tão mal compreendido e interpretado foi pela geração presencista, sinseramente universalista em geral e sem dúvida também por isso desconfiada diante desse aparente novo avatar do patriotismo nacional. É verdade que em Mensagem, mais do que nos aspectos "vanguardistas" da sua obra, se colhe, com maior evidência, uma inegável ambiguidade que faz parte do seu tão peculiar modernismo. (...) o modernismo de Pessoa não foi e não será nunca apologia e delírio da quotidianidade presente e suas fulgurações, mera apologia do novo, mas consciência das insolúveis contradições do mundo moderno e da mesma modernidade, porventura até, rejeição do seu próprio espírito. De Portugal enquanto realidade presente não espera Pessoa nada. Do Portugal como nauta de si mesmo, como história-profecia de que Mensagem interroga os anúncios e os signos sucessivos, tudo."

(Eduardo Lourenço, "Da literatura como interpretação de Portugal", O Labirinto da Saudade, Gradiva, 5ª edição, 2007, p.113-114)